Exposição de grandes escultores deste século reabre Parque da Luz
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quinta-feira, 23 de setembro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 24 (AE) - Esculturas monumentais para uma cidade decadente. Esse poderia ser o título da exposição que a Pinacoteca do Estado abre amanhã (25), no Parque da Luz, em São Paulo, para a população. Ao lado das esculturas dos maiores nomes da arte deste século, de Léger a Henry Moore, passando por Miró e Dubuffet, desfilam os mesmos personagens da "Cracolândia" - prostitutas, traficantes, mendigos e desempregados - que habitavam o parque antes de seu fechamento para uma reforma superficial. Ainda assim, com um orçamento limitado, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente fez o possível para reabrir um dos parques mais antigos e bonitos da cidade, mérito que, infelizmente, pode não dar frutos se o investimento na reurbanização da área continuar tão miserável como o público que frequenta a centenária área de lazer.
O Parque da Luz, hoje, é o lugar certo para quem estiver disposto a ver o que está acontecendo no país dos Hildebrandos e Viscomes. A poucos quarteirões da Pinacoteca, reformada recentemente, fica, por exemplo, a luxuosa Sala São Paulo, uma espécie de Concertgebouw perdida em meio a bárbaros traficantes de crack, ladrões, garotas que vendem o corpo atrás das árvores do parque e meninos foragidos da Febem. Ou seja, uma vontade de Primeiro Mundo reprimida pela realidade do Terceiro. Os poderosos acreditaram que era possível traçar um cordão de isolamento da pobreza e o resultado, hoje, é uma cidade sitiada, prédios com cercas elétricas como nos campos de concentração e um parque que os administradores não sabem como manter aberto. Jardim de guerra - Bem, fazendo de conta que o Jardim da Luz é o das Tuilleries em Paris, a exposição "Esculturas Monumentais Européias" vale o risco de uma visita até 21 de novembro - isto é, se o diretor da Pinacoteca, Emanoel Araújo, não resolver retirar dele as 19 obras por falta de segurança. Dois dias antes da inauguração, Araújo, que também é escultor, temia que as esculturas fossem depredadas pelos usuários do parque. Na quinta-feira, apenas um carro de polícia era visto em frente ao Parque da Luz. Em seu interior, o público ameçava sentar ao lado do casal esculpido por Chadwick e um caminhão das obras da reforma dava uma temerosa marcha-a-ré em direção à escultura de Mimmo Paladino.
Está certo, pode-se ou não gostar da transvanguarda italiana ou dos novos selvagens alemães, mas Paladino ou Lupertz não merecem voltar com arranhões para a Europa. Selecionadas pelo curador francês Jean-Gabriel Mitterand, as obras estão longe de representar uma síntese histórica da escultura monumental neste século (faltam Brancusi, Tony Smith, Richard Serra, Robert Morris e tantos outros que seria impossível uma lista), mas o conjunto forma uma pequena e valiosa amostra da escultura moderna, de Léger em diante. Brutos e realistas - Há, por exemplo, Dubuffet, o papa da arte bruta, ou seja, do primado da emoção sobre a razão, profeta da assemblage de materiais "pobres" ou insólitos (como o carvão e tijolo) que fizeram desabar a ordem clássica (do mármore ao bronze). Há também os novos realistas franceses - César e Arman - com seus comentários paródicos sobre revolução industrial e história da arte. César, morto no ano passado, fazia esculturas com sucata de carro, "compressions dirigées". Entre esses objetos comprimidos com a ajuda de equipamentos gigantescos está a Placa Eiffel, realizada há dez anos e agora exposta no Parque da Luz.
Arman brinca com o conceito de acumulação, criticando a uniformização cultural e o gosto médio com uma Vênus de Milo cortada ao meio e "concluída" com os restos da civilização industrial. As melhores obras da exposição fogem, porém, do anedótico para assumir os mandamentos do projeto moderno. A figura reclinada de Henry Moore, instalada na entrada do portão principal do parque, é um exemplo de equilílbrio desse humanista que abriu caminho para outros escultores ingleses, até mesmo Anthony Caro, aparentemente sua antítese. Caro, recorrendo ao ready-made, usa peças de ferro e outros metais reciclados. Defende a abolição da base como artifício que permite ao objeto devorar o espaço e ocupar o território em que está instalado.
No Parque da Luz, infelizmente, o visitante vai ter de pisar na grama para ver a peça sob todos os ângulos. Caro, ao contrário de Henry Moore, que fazia esculturas para parques públicos, fez obras como "Sonhando" (1993/97) pensando em interiores, facilmente "devorados" por esculturas como essa. Fome e desejo - A fome antropofágica de Caro, que busca o anônimo e o amorfo, colide com o desejo de sedução da francesa Niki de Saint-Phalle. Dela, a exposição traz "O Mundo" (1989), em que uma obesa e gigantesca figura feminina de poliéster vinga-se de séculos de repressão pisando sobre o globo. É quase certo que os miseráveis que circulam pelo Jardim da Luz ignorem a metáfora, assim como vão ignorar o sentido revolucionário do mosaico de Léger, "A Leitura" (1924), em que o mundo burguês é salvo da mediocridade pelos livros.
De qualquer forma, a convivência com Moore, Miró (representado por uma comovente obra de 1971, Constelação) e outros grandes mestres pode dar a essa gente tão sofrida um momento de beleza e alegria onde antes só havia horror e tristeza. Pelos próximos dois meses São Paulo vai brincar de ter um jardim parisiense com esculturas de artistas refinados como Henry Moore. Pode ser que um dia o Jardim da Luz venha a ter obras de brasileiros igualmente refinados como Sérgio Camargo e Amilcar de Castro ao lado de suas centenárias árvores. O Brasil estará, então, a caminho de conquistar um lugar no mundo civilizado.


