São Paulo, 05 (AE) - No dia 16, será aberta no museu da cidade de Salto, no interior de São Paulo, uma exposição de rara delicadeza. Tratam-se de painéis com fotografias de Victor Andrade e um tema único: a rotina de uma fábrica de papel que já cumpre 110 anos de atividades. As fotografias de Andrade mostram a Fábrica de Papel de Salto, a primeira instalada no País - houve uma tentativa do Barão de Piracicaba de abrir um fábrica assim, em 1873, mas malogrou.
A fábrica de Salto trouxe, com suas máquinas, um antigo sonho paulista, o de tornar aquela região uma espécie de Manchester (cidade industrial inglesa) no fim do século passado. A ambição passou, mas a fábrica ficou. Hoje, é administrada conjuntamente pela Votorantim Celulose e Papel e pela companhia inglesa Arjo-Wiggins, que patrocinaram o projeto de fotografia de Andrade, free lancer com estúdio em Vila Madalena.
A exposição precede o lançamento do livro "Papel de Salto (110 Anos de Evolução e Tecnologia)", de Andrade, que fica pronto para a próxima mostra do fotógrafo, no Memorial da América Latina, no dia 7 de outubro. Entre outros produtos, a fábrica de Salto foi pioneira na produção de papel-moeda, no fim dos anos 70 (até hoje, produz todo o papel-moeda do País e da Argentina). Mas o que deu origem à fábrica foi um negócio mal-sucedido.
Em 1873, o Barão de Piracicaba tentou abrir ali uma fábrica de tecidos. Mas, em 1875, obrigou-se a vender a propriedade, que acabou indo parar nas mãos da companhia inglesa Melchert & Co. A empresa encontrou ali as condições necessárias para a fábrica, como descreve Andrade em seu livro: água em abundância, energia e fibras de celulose. Notícia de jornal - "Vimos ontem uma amostra do primeiro papel, produto da importante fábrica dos Srs. Melchert & Cia no Salto de Itu", dizia uma notícia da Imprensa Ytuana em 15 de setembro de 1889. "Tinha a amostra 72 polegadas de largura, o que mostra que a fábrica pode produzir papel de dimensões suficientes para a impressão das maiores folhas que se publicam no Brasil".
O papel no Brasil tem uma história peculiar. As primeiras prensas chegaram já na época da colônia. Destinavam-se
curiosamente, a atividades ilícitas, como imprimir cartas de baralho, privilégio único e exclusivo da Coroa portuguesa. Falsificar baralho era crime. Em 1808, d. João VI inaugurou a Imprensa Régia no Rio de Janeiro, de onde saíam todos os tipos de publicações. Mas o papel ainda vinha de fora.
Em 1873, com as vias férreas já cortando a Província de São Paulo e o contexto desenvolvimentista da época, era necessário mudar a situação. A imigração italiana também trouxe a mão-de-obra necessária para as fábricas recém-instaladas. Foi aí que nasceu a Fábrica de Salto. Inicialmente, a fábrica tinha capacidade para produzir seis toneladas de papel por dia - entre papel de embrulho e de impressão (entre esse lote, o que servia para imprimar o jornal A Província de São Paulo, hoje O Estado de S.Paulo).
Empregava 39 operários. Hoje, produz 19 mil toneladas de papel por ano. Modernizada, é especializada em papel de segurança. Victor Andrade conta que fotografou a fábrica periodicamente, buscando um trabalho documental. "Em 1997, já fotografando para a revista "VCP Notícias", editada pela Votorantim, visitei a Papel de Salto pela primeira vez", lembra. "Fiquei fascinado pela arquitetura dos edifícios e seus bem cuidados jardins".
A oportunidade para fotografar a fábrica surgiu por ocasião dos 110 anos da indústria. Os proprietários entusiasmaram-se com o projeto do fotógrafo. Andrade optou por fazer o trabalho em preto-e-branco, e não se ater apenas à estrutura física do edifício. Os trabalhadores ganharam uma dimensão importante no trabalho, quase mítica. Novo Mundo - A fábrica não é monumentalista. Não é um edifício absurdamente grande nem tem o glamour de prédios históricos dos séculos anteriores ao 19. Já estava totalmente imbuída da visão da Revolução Industrial e foi construída como um símbolo dessa movimentação econômica no Novo Mundo. Sua manutenção - exatamente como foi criada - e a permanência da atividade ainda hoje são fatos raros e que lhe dão uma importância adicional.
Feito em granito, tijolos e pedras, o edifício tem o estilo das construções inglesas do fim do século passado. Os entalhadores que trabalharam na fábrica capricharam nos detalhes. Foram usados tijolos vermelhos, sem revestimento. As telhas são francesas e os caixilhos de ferro fundido. Ainda estão por lá os trilhos que serviam ao trem que escoava a produção.

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