São Paulo, 26 (AE) - Nos anos 70, o designer gráfico Felipe Taborda encantou-se com o livro "The Beatles Ilustrated" - uma obra que reunia a interpretação visual de grandes artistas ingleses para canções dos Beatles. Andou alguns anos em busca do patrocínio - que consegiu com a Petrobrás - para fazer algo semelhante aqui. A vontade concretizou-se em novembro, quando foi inaugurada a exposição "A Imagem do Som de Caetano Veloso", no Paço Imperial, no Rio de Janeiro.
Eram 80 canções, seleção feita por Taborda, lista depois submetida ao compositor, que a aprovou, e 80 artistas plásticos, publicitários, designers, cartunistas, fotógrafos, quadrinhistas, gente de diversos campos criativos e de presença ativa. Os títulos das músicas foram sorteados entre os ilustradores, para evitar disputas.
Do projeto constava a edição de um livro, contendo as letras das músicas e as imagens que provocaram. "A Imagem do Som de Caetano Veloso" (180 páginas) é uma edição da Francisco Alves. É o primeiro volume da pretendida série "A Imagem do Som", que promete, a cada ano, tratar da obra de um grande compositor na interpretação de artistas plásticos contemporâneos.
Nem todos os 80 artistas foram tão objetivos, nem todos se saíram tão bem quanto o pulicitário Marcello Serpa. A latrina suja de Anna Muylaert para O C... do Mundo desmerece a inteligência da letra ("O furto, o estupro, o rato pútrido, o fétil sequestro, o adjetivo esdrúxulo em u onde o cujo faz a curva"). Elifas Andreato, que nos anos 70 criou um logotipo para Caetano, aqui é redundante, como o é Rubens Gershman. Cabe lembrar que, também nos anos 70, uma pintura de Gershman (Lindonéia, a Gioconda do Subúrbio) inspirou a Caetano o bolero Lindonéia (ou melhor: quem viu o quadro e imaginou a música foi Nara Leão, que a encomendou a Caetano).
Há alguns grandes momentos. O solitário de Angeli, num quarto sujo, que ilustra Luz do Sol, é um deles. Outro, rigorosamente brilhante, é o trabalho de Cássio Loredano para ilustrar a canção Gente. Loredano recompôs o Abaporu de Tarsila numa criança africana miserável, recortada sobre uma silhueta que sugere prazer.
Os ilustradores (Laerte, Angeli, Loredano) saem-se melhor, talvez porque este seja o ofício deles: transformar idéias em imagens que as contenham e transcendam. A objetividade do publicitário Marcello Serpa é indispensável a seu ofício. Mas merecem destaque também os fotógrafos - as maçãs do amor vermelhas atravessadas por gravetos de Pecado Original falam por si, como o Haiti de Maureen Bisilliat, os sertanejos do Peter Gast de Pedro Martinelli, a Tigresa de Mário Cravo Neto.
Antônio Peticov mostra num painel que entendeu perfeitamente o estranhamento do jovem Caetano Veloso ao encarar as esquinas de Sampa: a urbe que se faz entre paredes de pedra, encantos menos fáceis de descobrir.
Os erros e os acertos de "A Imagem do Som" de Caetano Veloso fazem, de todo modo, refletir sobre a obra do grande poeta e compositor. A beleza que daí se extraia é um ganho adicional.

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