São Paulo, 01 (AE) - O curso "A Construção do Objeto", que Fernando e Humberto Campana estarão coordenando a partir de sexta- feira no Museu Brasileiro de Escultura (MuBE), não tem nada de convencional. Quem pensar em inscrever-se no workshop para aprender a fazer uma cadeira ou uma luminária no estilo dos expoentes do novo design brasileiro, consagrados pela exposição que realizaram recentemente no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York, pode desistir enquanto é tempo. Aqueles que ocuparem uma das 20 vagas abertas para o público terão como principal desafio nos próximos meses descobrir como construir e lapidar um volume.
Foi assim que Humberto abandonou a advocacia para tornar- se design e atraiu seu irmão Fernando (também descontente com a profissão de arquiteto) para a mesma empreitada. "Ele começou fazendo um curso de escultura na Faap", conta Fernando, lembrando que o irmão fez duas peças e na terceira já estava construindo uma mesa. "A pessoa vai descobrir o próprio caminho, mesmo que nunca tenha trabalhado com design ou escultura".
A idéia do curso nasceu há quase dois anos, no mesmo museu, quando os Campanas realizaram a exposição "Subjetos", ao lado dos designers Gerson de Oliveira, Luciana Martins e Jacqueline Terpins, na qual trabalharam com questões referentes ao tênue limite entre arte e design. Durante o mês da exposição, eles realizaram um workshop no qual colocaram em prática a própria dinâmica de produção. Nos trabalhos da dupla, o material adotado sempre é vital para a criação de uma peça, ajudando a definir sua forma e até sua função.
Usando papelão corrugado, eles criaram estantes, fizeram biombos de arame retorcido e construíram um bem-humorado tapete combinando grama sintética e pele de vaca. "É muito importante que as pessoas conheçam o material, até para poder subverter seu uso", afirma Fernando.
Adotando a mesma estratégia, eles levaram para o curso todo o material que sobrou no ateliê, mas ninguém chegou perto. "Parecia uma aula de anatomia, com um cadáver em cima da mesa", conta Fernando. As pessoas só começaram a mexer nas coisas depois que os dois designers resolveram brincar por conta própria, construindo os próprios volumes esquisitos sem prestar atenção no que se passava a sua volta. Desta vez eles pretendem encurtar essa timidez inicial, forçando as pessoas a criar com os recursos que dispõem.
"Durante muito tempo pensei que me tornaria artista plástico quando tivesse um ateliê montadinho", conta Humberto, que descobriu na prática o quão gratificante pode ser explorar materiais descartados pela maioria das pessoas. No entanto, os designers alertam que essa apropriação de materiais inusitados não justifica um descaso com o acabamento da peça. Tanto que seus alunos poderão dispor da ajuda de um serralheiro durante o curso, para conseguir chegar mais facilmente à forma desejada.
Na realidade, foi exatamente essa capacidade de trabalhar com a baixa tecnologia brasileira para alcançar um resultado high tech que encantou a curadora do MoMA, Paola Antonelli e o público que viu as peças da dupla, expostas em Nova York até o mês passado. Na falta de uma indústria estruturada, que banque projetos ousados, o jeito é inventar saídas. Como escreveu a curadora Paola Antonelli, eles "absorveram em suas vidas adultas o que aprenderam na infância".
E exemplos de criatividade não faltam. Sua mesa inflável, por exemplo, que está presente em várias coleções importantes, utiliza elementos no mínimo inusitados. A base e o tampo são de metal, mas ela tem o formato de tampa de caixa de pizza e o corpo inflável é, na verdade, um terço de uma latinha de cerveja feita em plástico para distribuir nos pontos de divulgação. "Não tínhamos dinheiro para mandar fazer um molde especial, então adaptamos a forma já existente", contam eles. No momento, os designers estão "quebrando a cabeça" para construir uma mesa cujo tampo é feito de ralos de cozinha em plástico branco - o que cria uma padronagem de arabescos ao mesmo tempo curiosa e familiar.
Outra saída para tornar viável seus trabalhos é apelar para o mercado externo. Eles têm, por exemplo, uma linha de cadeiras (intituladas Vermelha, Azul e Verde, em respeito a suas cores originais) produzida pela prestigiosa indústria italiana Edra Mazzei. Em troca da patente recebem royalties pela venda. É impossível encontrar os móveis no País, mas há uma loja estudando a possibilidade de importá-los. "Lá eles conseguem produzir industrialmente objetos de fabricação artesanal", conta Fernando, lembrando que quem enrola os 250 metros de corda colorida nas estruturas de ferro que dão origem às cadeiras é um simpático velhinho, que já desenvolveu uma técnica toda especial.
Semana passada, surgiu a primeira oportunidade de os Campanas realizarem sua primeira parceria com uma indústria nacional, que está interessada em fabricar uma porta de armário embutido que eles desenharam. Segundo Fernando, essa falta de infra- estrutura é parcialmente responsável pela opção dos designers pelos objetos mais sofisticados e de custo elevado. "Estamos inventando e produzindo objetos passíveis de serem produzidos em ateliê", explica, afirmando que se houvesse possibilidades de parceria poderiam estar produzindo peças de largo consumo, como as escovas de dente de Phillip Stark.
Os brasileiros também terão de esperar um pouco mais para ver uma exposição reunindo o conjunto de trabalhos da dupla. Antes da mostra nova-iorquina, o MAM de São Paulo mostrou interesse em realizar uma exposição similar no ano 2000, mas ainda não há acerto definitivo. Este ano, os Campanas estarão criando com seus móveis e objetos a ambientação da sala de leituras das três grandes exposições que o Itaú Cultural está preparando. Para eles, o ideal seria conseguir trazer a mostra para várias cidades do País com as peças do célebre designer alemão Ingo Mauer, que dividiu com eles o espaço do MoMA, estabelecendo um interessante contraponto.

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