EXPLOSÃO DE RITMOS
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de outubro de 2001
Elisa Marilia Carneiro<br> De Curitiba 
Extremanente rica em ritmos, a música árabe começa a ganhar espaço e a conquistar fiéis ouvintes no Brasil. Geralmente, acompanhando as dançarinas de dança do ventre, a música tem diferenças segundo as regiões do Mediterrâneo, do Golfo, do Vale do Nilo, além da clássica.
Atabaques e alaúdes em compassos diferentes promovem os ritmos, que os povos árabes fazem questão de preservar. Oriundos de uma cultura milenar, os habitantes da Península Arábica cultuam suas raízes de milhares de anos antes de Cristo. A música acompanhou os emigrantes árabes e desta forma está enraizada nas músicas indiana, egípcia, espanhola e portuguesa.
Para o libanês radicado em Curitiba Adenan Jezzini, 54 anos, a música faz parte da vida. ''Todos os acontecimentos importantes da minha vida estão ligados à música, desde a infância, até a primeira vez que me apaixonei, as brincadeiras de criança e o cotidiano da vida adulta.'' Jezzini é o proprietário do Bagda Café e promove todas as quintas-feiras uma ''noite árabe''.
Segundo o advogado Ali Haddad, brasileiro filho de sírio com libanesa, estudioso da cultura árabe, o Egito é o centro musical dos países árabes, em todos os tempos. ''É lá que estão os grandes conservatórios, de onde saíram compositores e músicos para o mundo todo. E aqui vale uma curiosidade: Verdi, por exemplo, compôs ''Aída'' para a inauguração do Canal de Suez. Ele esteve e estudou nos conservatórios egípcios, tanto que na música de Verdi há a rigidez da harmonia egípcia.''
Falando em rigidez, Haddad explica que a música egípcia não foge nunca às normas. Não existem distonias. Como os países do Mediterrâneo formavam uma só nação, as tradições são semelhantes com muitos traços em comum. As diferenças ficam por conta de alguns instrumentos.
Mas é na escala musical que os árabes ganham em riqueza. A escala que eles usam tem quartos de tons (a nossa vai até os semi-tons) e esses tons recebem nomes próprios. O ritmo da música árabe não é chorosa como a maioria das pessoas pensa, ao contrário, é frenética. ''Ninguém consegue ficar parado. A música árabe mexe com as pessoas, O ritmo é muito peculiar'', reconhece o advogado.
O bom instrumentista de música árabe tem que começar e terminar no mesmo tom. É aí que reside a rigidez. Durante a execução, o músico pode passar pelos diversos tons, nas no final tem que obrigatoriamente voltar ao tom inicial. ''A dificuldade é acrescida pela forma que os instrumentos são construídos. O braço do alaúde, por exemplo, não tem espaços pré-marcados, é liso. O instrumentista não pode errar.''
Desta forma, a música árabe é de extrema sensibilidade e o músico tem que ser também muito hábil, com um ouvido apuradíssimo. Para se formar, eles passam pelos conservatórios que existem na Síria, além do Egito.
Mas se a harmonia da música árabe é agradável, algumas seitas do islã não são adeptas a essa prática. Para os talebans, os estudantes radicais que dominam o Afeganistão há cinco anos, não há espaço para melodias construídas ao ouvido humano. É proibido ouvir música, dançar, fazer festa. Resumindo, é proibido se divertir.
Apesar desse paradoxo, não é o único contraste que se evidencia na cultura islâmica. Os talebans proíbem também as imagens, banindo as emissoras de TV e permitindo que apenas uma rádio, a Sharia (lei islâmica), leve ao ar notícias filtradas pelo regime. Desse modo, cineastas como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi nasceram sob a égide do islã, mas mantêm o lirismo tão próprio ao ser humano.


