Explosão de grooves
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de outubro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A banda Nação Zumbi surpreende outra vez. Surpreende porque, a cada disco, parece potencializar as fusões musicais explosivas já familiares de seu público. O novo álbum, homônino à banda, atualiza os manifestos do mangue beat revigorando as batidas percussivas que tanto marcaram o pop brasileiro ao longo da década de 90.
É o quinto disco do grupo, o segundo sem Chico Science (1966-1997). Chega às lojas pela gravadora Trama. O repertório combina grooves funky, sonoridades jamaicanas e as habituais batucadas racha-assoalhos. O álbum abre com vocais sombrios em ''Blunt of Juday'' e fecha com vocais distorcidos em ''Tempo Amarelo''. O tratamento da voz, distanciada e pontuada por ecos aqui e ali, segue a cartilha dub.
Pela primeira vez, a banda canta em inglês nas faixas ''Know Now'' e ''Amnesia Express''. Esta última sobressai no CD com apelos dançantes e ruídos eletrônicos. É um dos destaques ao lado da nervosa ''Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada'' (toda costurada pela guitarra de Lúcio Maia) e da climática ''Prato de Flores''. O álbum foi produzido pelo sexteto recifense em parceria com Arto Lindsay e o núcleo Instituto.
A mixagem ficou por conta do norte-americano Scott Hard, engenheiro de som de artistas como Bjork e Wu-Tang Clang. Entre as participações especiais figuram Nina Miranda (vocalista do grupo inglês Smoke City), John Medeski (tecladista do trio jazzístico Medeski, Martin & Wood), DJ Marcelinho, Catatau (do grupo local Cidadão Instigado) e Dona Cila (uma senhora de 63 anos que vende tapioca em Olinda).
Todas as faixas são de autoria do grupo, duas delas feitas em parceria ''Propaganda'' com Audiolandro e ''O Fogo Anda Comigo'' com Rogerman. O CD levou três meses para ser gravado e vai levar um bom tempo para ser esquecido. A seguir, a entrevista que o baterista Pupilo concedeu à Folha2.
O primeiro manifesto do ''mangue beat'' está comemorando 10 anos. Que avaliação você faz dos efeitos que ele gerou?
Para a Nação Zumbi, continua valendo o ideal 'do it yourself' (faça você mesmo). A gente levantou a bandeira do trabalho em cooperativa procurando, ao longo do anos, manter contatos com gente de fora para não ficar isolado. Na época, não existia nada em Recife. O Chico (Science) e Fred Zero agitaram o ambiente. As bandas novas nos procuravam para saber se havia algum critério para fazer parte do mangue beat. Não havia critério nenhum, mas tanto a Nação Zumbi quanto a mundo livre faziam um som diferente e era isso o que interessava. De lá para cá, a cidade abriu muito. A coisa cresceu e hoje está passando por um amadurecimento. De qualquer maneira, acho que ainda é cedo para fazer uma avaliação mais profunda do movimento.
Que diferenças você destaca nesse novo disco em relação do álbum anterior?
As parcerias. Quando gravamos o disco anterior (''Rádio S.amb.a''), estávamos nos recompondo, nos refazendo do baque da morte do Chico. Era o primeiro disco sem a presença dele e decidimos fazer tudo sozinhos. A gente perdeu os contatos com o pessoal do sul porque já estávamos de volta a Recife. Não queríamos chegar em São Paulo para gravar com um produtor que a gente não conhecesse e que fosse convidado apenas por seus méritos. Então, optamos por produzir nós mesmos o trabalho. Agora não, agora retomamos as parcerias trabalhando com o Arto Lindsay, o pessoal do Instituto e os músicos que participam das faixas. Escolhemos o Scott Hard para mixar o disco porque acompanhamos seu trabalho há muito tempo. É um cara que já trabalhou com o Wu-Tang Clang, a Bjork e o Medeski. Ele tinha o perfil para traduzir as idéias da banda. Não determinou a sonoridade do disco, mas viabilizou nossas referências.
Foi dele a idéia de dar um tratamento dub às faixas?
Não sei se o dub esteja tão presente a ponto de conceituar o disco. Acho até que a pegada soul é mais acentuada. Os discos da Nação têm links uns com os outros. Não é a primeira vez que o dub aparece em nosso trabalho. Ele é uma referência também no ''Afrociberdelia'' e no ''Radio S.amb.A''.
A Nação Zumbi lançou três CDs por uma multinacional (Sony Music) e saiu meio brigada de lá. Você se desiludiu com as grandes gravadoras?
O mercado mudou muito nos últimos cinco anos. As gravadoras estão passando por uma grande crise. Mas elas continuam operando com um departamento de marketing equivocado, que dedica tratamento igual para uma dupla sertaneja e para uma banda como a Nação Zumbi, que são coisas completamente diferentes. Meu recado para uma banda que está começando é que pondere bem ao ser assediada por uma multinacional. Quando você entra no negócio de olhos vendados, corre o disco de cair na vulgaridade.
A Nação Zumbi já gravou 5 álbuns. A idéia de resgatar as tradições locais, mote dos manifestos do mangue beat, continua forte ou foi diluída pelas referências internacionais que a banda foi assimilando ao longo dos anos?
Eu diria que as raízes estão cada vez mais próximas. A diferença é que agora a banda tenta dar-lhes uma dimensão universal. Somos urbanos, apesar da veia popular. Todos os nossos familiares e parentes que moram no interior, por isso a convivência com as manifestaçõs culturais regionais é uma coisa do dia-a-dia. Mas nossas referências passam também por ritmos da Jamaica e de Cuba, que têm semelhanças com a música brasileira. Não se trata de criar um novo sincretismo, mas de procurar uma posição mais universalista nessa história.
Vocês já fizeram algumas excursões para o exterior. Estão com shows programados lá fora para promover esse novo disco?
A Trama começou a levar os artistas de seu cast para tocar no exterior. Antes, não tínhamos muita estrutura. A Sony não ajudava em nada. Íamos por nossa conta. Mesmo quando lançamos o ''Radio S.amb.a'' pela YBrazil Music, um selo pequeno, conseguimos fazer uma excursão de um mês. Agora, poderemos viajar com um esquema melhor. O legal é que já contamos com um público por lá, que não é o público habitual formado por brasileiros, mas um público que aprecia música alternativa.


