Explosão de criatividade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de fevereiro de 2010
Marco Bezzi<br> Agência Estado 
A vocação de Humberto Gessinger, o líder do Engenheiros do Hawaii, nunca foi a de comandar multidões. Menino tímido, de poucos amigos na escola e na faculdade, Gessinger se trancou no mundo da música, do futebol e do tênis na adolescência. Em 1984, enquanto cursava Arquitetura em Porto Alegre - influenciado pelos integrantes do Pink Floyd, arquitetos de formação -, conheceu o baterista Carlos Maltz, com quem formou o embrião do que seria o Engenheiros do Hawaii. O grupo estrearia nos palcos no dia 11 de janeiro de 1985, abertura do primeiro Rock In Rio. O jeito fechado de Humberto, desde essa época, foi confundido com autossuficiência e presunção, marca que o seguiu por toda a carreira. Em 2010, o Engenheiros do Hawaii completa 25 anos. Coincidência ou não, Humberto Gessinger, hoje com 46 anos, casado e pai de uma adolescente de 18, lança sua biografia com dezenas de fotos, letras de música e poemas, além de um disco acústico que leva a alcunha de ''Pouca Vogal''.
Como surgiu a ideia de lançar um livro?
Participei de uma coleção de futebol da editora Belas Artes e escrevi sobre o Grêmio. Surgiu a ideia de contar a história da minha carreira.
O Engenheiros teria lugar no atual mundo da música?
Não. É como olhar para uma foto de um time de futebol dos anos 80. O goleiro era baixinho e hoje é um gigante, só serve para a posição hoje se for um sujeito muito alto. É como a cultura pop, quem tem um discurso de protesto é super de protesto, quem é emocional é super emocional, quem faz música para dançar é super para dançar. Nos anos 80 as bandas trafegavam num meio termo bacana. Eu tenho saudades do jeito leviano do Police de tocar reggae e do Clash de tocar funk, nada era tão profissional. Hoje os tempos são outros, mais pragmáticos, cada vez você tem de ser mais especializado. Montamos uma banda para tocar em uma noite, acabamos tocando uma semana, ganhamos o disco de ouro, eu larguei a guitarra e fui pro baixo. Essas atitudes meio inconsequentes não têm espaço hoje. Está todo mundo vestido pra matar.
Escrevendo o livro, deu vontade de mudar alguma coisa na história da banda?
Não mexeria em nada. A escolha do nome foi algo aleatório, por exemplo. Talvez hoje colocasse um nome unidimensional na banda pra não ter que ficar explicando o significado dele. Mas sabe, sempre fui muito despreparado para estar aonde estou. Na minha família todos são professores, não tem nenhum artista e ninguém teve de lidar com tanta gente. Não tenho inteligência para me comunicar fora do âmbito da canção, não nasci pra ser artista. Mas a vida te leva pra lugares estranhos. Sou muito fechado e sou assim na minha vida particular.
O que dava mais ''barato'', mais prazer nos anos 80?
Eu sempre digo que o paraíso é uma rua enorme com várias vitrines de guitarra. O que me dava prazer era tocar o instrumento, trocar as cordas, essa coisa de ofício de marceneiro. Cantar nunca me deu prazer.
Há chances do Engenheiros voltar com sua formação clássica (além de Gessinger, o guitarrista Augusto Licks e o baterista Carlos Maltz)?
Gostaria muito de voltar a tocar com eles. A saída do Licks foi gradual (em 1994), trabalhamos muito por sete anos e estávamos sem rumo. Não me vejo lançando material inédito com o Engenheiros. Nunca mais falei com o Licks, mesmo quando tocávamos nunca fui na casa dele. Acho que se nos encontrássemos na rua voltaríamos a conversar de onde a gente parou, somos parecidos.
E o novo projeto ''Pouca Vogal'', onde entra na sua história?
Se o Engenheiros se encaixou no rock brasileiro, o ''Pouca Vogal'' é um formato de música de rua. O que eu tinha de acrescentar na cena de guitarra, baixo e bateria eu já acrescentei.
SERVIÇO
- Pra ser sincero
Autor - Humberto Gessinger
Quanto - R$ 40 (304 págs.)
- Pouca Vogal
Artista - Humberto Gessinger
Lançamento - Som Livre
Quanto - R$ 29,90


