As cores da África se mesclam aos horrores da guerra na mostra ‘‘Guiné-Bissau – Um País em Construção’’ que a fotógrafa argentina Virgínia Yunes abre hoje, no Catuaí Shopping Center em Londrina. A mostra é organizada pelo Núcleo de Estudos Afro-Asiático da Universidade Estadual de Londrina.
A fotógrafa desembarcou em Guiné-Bissau pela primeira vez em maio de 1998. Imediatamente, Virgínia apaixonou-se pelo que viu. Cabelos, roupas, hábitos, turbantes, tudo colorido, saltando aos olhos. Esta explosão de cores veio contrastar com outra explosão, a causada pela guerra. Virgínia, que entrou no país como turista, encontrava-se, uma semana depois, na delicada condição de refugiada. ‘‘Quatro dias depois de chegar ao país, fui a Suzana (ao norte, na fronteira com o Senegal), para passar o fim de semana, levando apenas um par de roupas e a máquina fotográfica... Durante três meses fiquei como refugiada no país, na esperança de a guerra acabar para que eu voltasse a capital e recuperasse meus pertences, principalmente passagens, dinheiro e documentos... Mas, sem perspectivas e com a guerra se agravando, consegui uma carona até Dakar, Senegal, e de lá a Embaixada do Brasil me repatriou’’, conta a fotógrafa em um emocionante relato escrito ao professor Eduardo Barros, curador da mostra.
Durante os três meses em que ficou no país, Virgínia juntou seus esforços aos missionários que, além de prestarem assistências nas área de saúde e na distribuição de alimentos, também tinham a tarefa de manterem abertos os canais de comunicação, para que a guerra não fosse minimizada diante dos olhos do mundo.
Virgínia, que atualmente vive em Florianópolis, ficou fascinada com a experiência. A dor da guerra, a vontade de ajudar, as cores da África, seus ritmos, ninguém sabe ao certo, mas a fotógrafa, que estava confortavelmente fora da zona de guerra, decidiu voltar novamente para Guiné-Bissau.
Desta vez, voltou como missionária da ONG Caritas, uma instituição ligada à Igreja Católica. Virgínia seria a responsável em organizar toda a ajuda humanitária que chegava do exterior. Durante meses, a fotógrafa recebia medicamentos e alimentos e corria em socorro de aldeias que estavam, aos poucos, desaparecendo, em uma guerra que dizimou cerca de 10 mil pessoas e provocou a fuga de mais de 200 mil.
As dificuldades de um país que não possui energia elétrica ou água em seu interior, sem telefone e comida, somavam-se à estradas repletas de minas, tropas enfurecidas, estradas esburacadas, epidemias e mortes para todo o lado.
‘‘Uma vez – diz em seu relato – tive que ir com o motorista da missão buscar um doente que deveria ir para Bissau. Tomamos um barco até a aldeia e quando chegamos lá ele já estava morto, mas mesmo assim colocamos o corpo no carro envolto em alguns tecidos e rumamos para o porto. Quando as pessoas viram o corpo, começaram uma briga porque muitos acreditavam que se o corpo fosse junto com a embarcação, ela viraria. A história é que o morto entrou e saiu não sei quantas vezes da canoa e terminou ficando... A viagem foi terrível, choveu sem parar um só minuto durante seis horas, o mar estava agitado e por milagre a canoa não virou...’’
Foram experiências como essas, verdadeiros choques culturais onde diferentes costumes entram em atrito, que serviram de gasolina para as histórias e fotografias de Virgínia. Pequenos momentos onde a guerra parece esquecida, uma lembrança antiga que não atrapalha costumes arraigados. Sempre atenta, Virgínia não deixou de lançar seu olhar ao belo, aos rituais, Registrou cerimônias de iniciação à vida adulta, celebrações às chuvas, rituais de morte, cores. ‘‘Quando voltei ao Brasil, percebi que a maioria das pessoas nada sabiam sobre o que estava acontecendo em Guiné-Bissau’’, conta. ‘‘...Acredito de fato que a única maneira de resgatarmos nossa humanidade é sair dessa distração coletiva que ‘ingenuamente’ fomos colocados’’.
Guiné-Bissau – Um País em Construção – Exposição de fotografias da argentina radicada no Brasil Virgínia Yunes. Até o dia 20, no Catuaí Shopping Center, próximo ao Bingo e ao Boliche.

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