Experimentalismo musical no MAC
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quarta-feira, 26 de maio de 1999
Zeca Corrêa Leite 
O grupo Contempo Sonoro, que há alguns meses levou uma peça intrigante para o teatro do Memorial de Curitiba, onde ficou estático observando a platéia, como se ela fosse o espetáculo, volta à ativa hoje, com novas performances, agora no Museu de Arte Contemporânea. Será às 19 horas, dentro da série Experiment@, cumprindo um ritual que é, na verdade, um ensaio geral. A Casa não dispõe de condições técnicas para se levar ao pé da letra aquilo que os autores pedem.
Nenhuma crítica quanto ao espaço, deixa claro o violonista Octavio Camargo, um dos coordenadores artísticos do Contempo Sonoro. O programa é formado pelo teatro-musical Happy Hour, do suíço Hanz Wuthrich (1996), as peças de concertos A Raiva do Ronco, de Chico Mello e A Dois, de Tim Rescala (1992). A confirmar: Der Gerfaltete Blick, cantata para duas vozes e violoncelo, de Carola Banckholt (1984).
No dia 13 de junho as montagens serão vistas pela platéia londrinense no Teatro do Colégio Marista. Ali, tudo que as partituras pedem serão obedecidas, a começar pela intensidade das luzes em resistência, e focos direcionados, como por exemplo na mão de uma solista. O espetáculo vai muito além da música, como se entende tradicionalmente o que seja música. Para estes artistas o conceito é bem mais amplo.
Num barOs 15 integrantes do grupo começam a sessão com um número performático que dura 20 minutos. Happy Hour se passa num boteco, por volta de sete da noite. As pessoas acabaram de sair do trabalho e antes de ir para casa estão ali, divididas em grupos específicos, seja discutindo temas de papo-cabeça, jogando conversa fora ou simplesmente namorando.
Como se alguém brincasse com uma fita de vídeo, os músicos-performáticos passam seis segundos congelados e apenas um segundo para falarem e se movimentarem. Uma única fala leva minutos para ser concluída. Mas aqui as conversas não se distinguem, porque a música é o burburinho do bar. Tem percussão - no barmen que prepara os drinks.
Música não se faz só com som. Pode-se fazer com gestos. O som não é o único material que o músico organiza, explica Octavio Camargo. A novidade do trabalho não atinge somente o público, como os instrumentistas, que não têm formação de atores. A falta de tarimba para a representação acrescenta o charme do número: A timidez tem sua poesia.
Do bar, parte-se para a música, por assim dizer, convencional: A Raiva do Ronco, que é uma produção recente de Chico Mello, e A Dois, de Tim Rescala, composta em 1992. A peça de Chico Mello foi escrita para pequeno grupo de instrumentistas e uma cantora. Os instrumentos que participam do número: violoncelo, viola, piano, flauta, vibrafone, saxofone, percussão e canto.
A Dois, de Tim Rescala, é também um trabalho de teatro-musical, voltado para o bom humor. Dois percussionistas tocam e falam ao mesmo tempo. É um casal que está brigando e à medida que eles se irritam, pontuam as falas com os sons de seus instrumentos.
O grupo criado em 1995 vai na contramão da história de que Curitiba é a cidade perfeita para a música antiga. Os profissionais, de formação erudita, dedicam-se unicamente ao trabalho contemporâneo, pouco conhecido das platéias. Nos quatro anos de existência estiveram no Museu de Arte Contemporânea da Bahia, na Bienal de Música Brasileira Contemporânea, no Rio de Janeiro; no Projeto Escuta, também no Rio, e no Instituto para Música Nova, da Escola Superior de Arte de Berlim.


