São Paulo, 20 (AE) - O grande desafio dos estilistas da atualidade é derrubar o abismo que parece intransponível entre a moda e a realidade, entre o faz-de-conta e o cotidiano. Nelson Leirner, em desfile recente, colocou os camarins no meio do público, com as modelos trocando de roupa e se maquiando ali mesmo, na geral. Escancarou o voyeurismo. Mas aquilo foi apenas um tijolo arrancado do muro. O esforço multiplica-se: Genival Lacerda e sua barriga indecente viram modelos, Zeca Baleiro entra de bicicleta na passarela, além de idosos e crianças, deficientes e donas-de-casa.
Mas o que Marcelo Sommer fez na quinta-feira pela manhã, no Pavilhão 6 da Casa de Detenção, teve o impacto de um guindaste de demolição nas convenções da moda. Ele ensaiou e vestiu 13 travestis-detentos para um desfile fechado, cujo maior propósito era sócio-cultural: abrandar o preconceito interno dos presos para com seus companheiros homossexuais, tratados como amélias na lógica da cadeia. Ou, quando menos, examinar potencialidades fora de suas fronteiras habituais, revelar valores e devolver auto-estima àquelas top models da penitenciária. J á poderíamos parar por aqui. A nobreza das intenções seria mais do que suficiente para justificar o desfile. Mas houve também o fator inteligência, o fator engenho. Sommer fez um contraponto entre o material humano de que dispunha - de estética diferenciada, uns gordos, outros magros, uns baixos, outros altos - e os modelos que desfilavam. Seu desafio era duplo e ele não foi amador: passou cinco meses criando a coleção
adequando intenção, premonição e pragmatismo. O DJ Gus também não cedeu aos apelos da facilidade. Foi popular, com Roberto Carlos e a Jovem Guarda e Tim Maia, mas não foi nunca populista. Os melhores momentos eram dados pelos rocks de Roberto e Erasmo, entre nostálgicos e atuais.
Globeleza, alta como um palito, entrou de vestido rosa e peruca longa negra. Preta, gorducha e com pernas de zagueiro do Bangu, entrou como uma cheerleader de torcida, com sainha curta plissada, ao estilo college. Vanessa vestia chita florida vermelha e coroa de flores na cabeça, uma camponesa pop. Sommer não fez roupas para um determinado tipo físico ou social. Não se submeteu ao estereótipo do travesti clássico de esquina, mas também não ignorou a característica excessiva do profissional das ruas. Ainda assim, fez roupas para o dia a dia, tênis e sapatos de salto para quem espera desfilar algum dia algum tipo de orgulho pessoal.
Segundo o agente penitenciário Reinaldo (que não deu sobrenome), que trabalha há 19 anos no Carandiru, ele nunca tinha visto algo parecido no presídio. Nunca houve um desfile, quanto mais um como aquele. As roupas não estão à venda. "É um desfile deles para eles, mais do que um desfile meu", disse Sommer, de 32 anos. Ele disse a Lilian Pacce, do "Estado", que em vez de roupas sociais, de festa ou streetwear (a especialidade de Sommer), ele preferiu criar roupas-fantasia: sereia, caubói, diaba, bailarina, torcedora, príncipe, mágico, onça, debutante, camponesa, jogadora, punk e noiva. Na verdade, ele fundiu os conceitos: a roupa é uma fantasia social, portanto os termos são indissociáveis.
O estilista esteve mais de 10 vezes no presídio, tirando as medidas, conversando com os modelos. A idéia do deslocamento parece seduzir o estilista. Foi ele o responsável por vestir fraque sem camisa no músico pernambucano Otto para a festa dos prêmios da MTV. Marcelo Sommer é conhecido por ser um gênio do streetwear, fundindo combinações da roupa das ruas com um toque moderno, criativo. Foi o estilista exclusivo da Zapping, durante certo tempo. Atento ao comportamento da moçada nas ruas e nos clubes, tanto no Brasil quanto no Exterior, é um herói dos tempos da globalização. Mas quis ir mais longe.
Acostumado à cultura clubber, ele teve que reverenciar a origem: as drag queens e os travestis é que geraram os arquétipos e as confusões que resultaram no visual da noite. Há um quê de circense, de clown, um ideário de comic book no resultado, mas ele é absolutamente pertinente. O coisa ruim que Rogéria encarnou, com tridente e tudo, ou a cartola mandrakiana da Carioca só reforçam a marca da diversão. Mesmo na cadeia, nem tudo é abandono e falta de esperança.

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