Considerado gênero menor em enciclopédias e compêndios sobre a sétima arte, o cinema de aventuras engloba de tudo um pouco - e basicamente sempre teve a cara de Hollywood. Fixar limites e estabelecer fronteiras é tarefa praticamente impossível. Mas há pelo menos dois elementos de consenso, regulares e persistentes, para caracterizar esta caudalosa vertente: um traço de narrativa épica levada a efeito através do esforço e da ação física; e o local onde se desenrola esta ação, insólito ou pitoresco, podendo ser Índia, África, China, Afeganistão ou qualquer recanto desconhecido para onde voasse a imaginação de roteiristas, produtores e diretores. Ao longo de pelo menos uma década de sua história - os anos 40 -, o império escapista hollywoodiano ofereceu às platéias ansiosas por sonhos uma vasta coleção de cartões postais, a princípio timidamente em preto-e-branco (Rodolfo Valentino inaugura a lista em ''O Sheik'' e ''O Filho do Sheik'', em 1921 e 26), logo sobrecarregados com tintas ''technicoloridas'', recheados de tramas e personagens sem vínculos ou compromissos com a realidade. Ao contrário: na grande maioria das vezes atropelando a autenticidade da geografia física e humana e dos registros históricos.
É (im) precisamente neste gênero multifacetado que se inclui um sub-gênero rico em incoerências, uma alternativa temática que visita o chamado mundo árabe, aí incluídas todas as liberdades possíveis e imaginadas. A aventura exótica, com sua principal ramificação: a fantasia oriental, que gozou de enorme popularidade mundial a partir do nascimento da cor. Ingredientes principais: um deserto de areias escaldantes, cavalos e alguns camelos em constante movimentação, uma dupla de heróis, uma dupla de vilões (ou mais) e uma bela heroína, despida e erotizada até onde a recatada censura daqueles tempos permitia. A lamentar que muitas vezes foram utilizados esquemas narrativos do cinema de aventura tradicional ou até mesmo do western, apenas disfarçando os protagonistas como tuaregues ou beduínos.
Quando a fantasia comandava o espetáculo, deixando em plano secundário um Oriente superficial, arbitrário e/ou equivocado, os resultados eram um cinema onírico, quase surrealista. Como nas duas versões de ''O Ladrão de Bagdá'', a americana de 1924 com Douglas Fairbanks e a inglesa de 1940, com Sabu. Nesses casos, prevalecia uma porta aberta a todas as invenções, e tudo remetia diretamente aos contos de ''As Mil e Uma Noites''. Gênero misógino por excelência, a fantasia oriental teve no entanto uma exceção, uma ''rainha do Technicolor''. A mexicana Maria Montez, já a partir do nome, seduziu galãs e platéias em quase uma dezena de papéis, de ''As Mil e Uma Noites'' (42) a ''Sudão''(45).
Muçulmanos, de modo geral, sempre tiveram participação hostil no processo aventureiro de Hollywood. Na longa lista de filmes com a Legião Estrangeira como tema, as tribos do deserto eram sinônimos de espírito belicoso. Os homens ocidentais iam purgar seus pecados ou serem esquecidos pelo mundo nos confins do Saara, combatendo sem grandes esperanças de vitória, mas heroicamente, um inimigo quase sempre invisível e traiçoeiro, descrito como cruel e perigoso.
Só a partir dos anos 60 o cinema deu voz e fisionomia definidas, humanizando árabes ou outros povos ''hostis'', como africanos e indianos, de resto todos muçulmanos. Em 61, no clássico ''El Cid'', de Anthony Mann, o personagem Rodrigo Diaz de Vivar, interpretado por Charlton Heston, luta ao lado de tribos aliadas para expulsar os mouros islâmicos da Espanha. E no ano seguinte, no monumental ''Lawrence da Arábia'', o diretor David Lean conta a controvertida história do homem que conseguiu unir tribos árabes para combater os turcos otomanos. O mesmo David Lean deu decisiva (e pessimista) contribuição ao eterno conflito entre Oriente e Ocidente no épico ''Passagem para a India'', de 1984, baseado em E. M. Foster. Às margens de um plácido Ganges banhado pelo luar, o personagem indiano, interpretado por Alec Guinness, conversa com a inglesa vivida por Peggy Aschcroft. Em poucas palavras, ele explica à mulher porque as duas culturas sempre foram e sempre serão irreconciliáveis.
E mais recentemente, com o fim da bipolarização do poder mundial e com a crescente tensão no Oriente Médio, via causa palestina e endurecimento de Israel, Hollywood concentrou seu poder de entretenimento em atos terroristas, mas sob uma ótica edulcorada, estilizando a violência como linguagem capaz de criar e fortalecer heróis geradores de megabilheterias. Nos anos 90, Willis, Schwarzenegger e Stalone formaram o trio que comandou o show business contra a uma difusa ameaça (iraquiana? iraniana? árabe dissidente? palestina?) sem pátria ou rostos definidos. Por enquanto, ainda aturdidos, os executivos da indústria de filmes não têm a mínima idéia do que fazer. O tempo de Ali Babá e os 40 Ladrões ficou perdido na História.

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