Exibição de "Orfeu" em favela encanta moradores
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domingo, 09 de maio de 1999
Por Clarissa Thomé, especial para a AE 
Rio, 10 (AE) - O filme "Orfeu" foi visto por cerca de 1,5 mil pessoas na noite de domingo, no Ciep Mestre Cartola, em Vigário Geral, na zona norte do Rio, numa festa emocionante, encerrada com show de Caetano Veloso. A exibição uniu moradores de favelas rivais - Vigário e a vizinha Parada de Lucas - e levou o cinema a quem não tem acesso a essa arte. "Orfeu foi inspirado nesse público, que o assistiu de pé e se reconheceu nos personagens", afirmou o diretor Cacá Diegues, ao fim da apresentação. "É um filme feito por pessoas que acreditam que a nossa vida pode ser muito melhor".
A festa em Vigário Geral, inauguração do projeto "Orfeu nas Favelas", que vai estender-se por cinco comunidades cariocas e pela periferia paulistana, começou por volta das 18 horas, com apresentação de bandas locais. Depois da exibição do filme, parte do elenco - Toni Garrido, Patrícia França, Murilo Benício, Isabel Fillardis, Stepan Necersian - subiu ao palco sob fortes aplausos. "As pessoas estão comemorando a chegada da arte até elas, não a nossa presença aqui", afirmou Garrido.
Tanto o diretor quanto os atores rebateram as críticas negativas que "Orfeu" recebeu. "O filme foi assistido por 500 mil pessoas em 17 dias", disse Cacá Diegues. "Hoje uma senhora me abordou e disse: obrigada por mostrar a verdade; é isso que importa". O filme, baseado no mito de "Orfeu", que desce ao inferno para salvar sua amada, é ambientado numa favela carioca, mas teve suas cenas filmadas em cenário. "A favela passa em "Orfeu" e agora "Orfeu" passa na favela", comemorava Caetano Veloso, para quem o momento maior da projeção foi quando Toni Garrido apareceu nu na tela. "As pessoas se empolgaram", brincou. Bate papo - Os dois cantaram músicas do filme, como a balada "Sou Você" e o samba-enredo "A História do Carnaval Carioca"
ambas de Caetano, que encerrou o espetáculo. Ele estava tão à vontade que chegou a negociar com a platéia as músicas que tocaria e falou ao celular de um fã, que pedia para o cantor conversar com sua mãe.
Vigário Geral ficou conhecida pela chacina, que deixou 21 pessoas mortas em agosto de 1993, e já foi chamado de Bósnia brasileira, por causa da guerra entre traficantes pelo controle do comércio de drogas no local. Três anos atrás, a polícia ocupou a favela e a violência diminuiu. "Hoje nossos filhos vão para escola sem risco de bala perdida, mas a violência aqui era igualzinha à do filme", disse a costureira Maria da Silva Pereira, de 35 anos, mãe de três filhos. Ela não ia ao cinema havia quatro anos.
A favela foi escolhida pela mulher de Caetano e produtora de "Orfeu", Paula Lavigne, para iniciar o projeto "Orfeu nas Favelas" por causa da banda Afro Reggae, formada por 20 moradores de Vigário Geral, com idades entre 13 e 19 anos
da qual Caetano e Regina Casé são padrinhos. A banda, que rodou o mundo com espetáculos de música e dança, foi formada depois da chacina. "Conhecemos essas crianças pequenas e tínhamos uma preocupação enorme com elas e com esse lugar", disse Regina, apresentadora da festa de domingo. "Vê-las com sucesso e felizes é o melhor presente do Dia das Mães".


