Exército luta para preservar os fortes
Rio - Passear pelos túneis, masmorras e prisões dos primeiros fortes fluminenses proporciona mais do que a vista maravilhosa por ângulos inusitados. É um mergulho num passado de guerras contra índios e invasores, mas também um retrato de um presente de penúria, onde o Exército recruta soldados para manter o patrimônio e os manda de volta para casa no fim do dia porque não tem recursos para alimentá-los.
Essa história começa no século 16, logo após o descobrimento, quando o aventureiro francês Villegaignon se aliou aos índios tamoios, que aqui viviam e resistiam à escravidão imposta pelos portugueses. Juntos, índios e franceses construíram as duas primeiras fortificações: uma, na entrada da Baía de Guanabara, em Niterói (que viria a ser a Fortaleza de Santa Cruz), e outra, na Ilha da Laje, no meio da baía, então chamada de ''Ratoeira''.
O apelido referia-se a uma armadilha que teria matado muitos incautos navegantes portugueses. Ao entrarem na baía, eram capturados pelos inimigos, escondidos no interior da ilha, que tem o formato de uma laje. Aprisionados, eram abandonados numa masmorra subterrânea, onde morriam afogados quando a maré subia.
Poucos anos depois, em 1565, por ordem do governo de Portugal, Estácio de Sá desembarcou entre os morros Pão-de-Açúcar e Cara de Cão com a missão de expulsar os franceses e fundar um povoado. Nascia o Rio de Janeiro, ao redor de uma das baterias (aglomerado de canhões) do que viria a ser a Fortaleza de São João que, conta a lenda, chegou a ter na entrada uma ponte elevadiça e ser cercada por um fosso semelhante a dos castelos medievais.
Após repelirem diversas tentativas de invasão de franceses e holandeses, durante os séculos 16 e 17, sobreveio um período de calmaria. As guarnições que ficavam em permanente posição de defesa relaxaram até que, na primavera de 1711, o pirata francês René Duguay Trouin conseguiu entrar na baía e atracar na cidade. Só saiu depois de receber o resgate navios e mercadorias pagos pelos portugueses.
No século 19 (1861-65), por causa da Questão Christie, o imperador D. Pedro II reformou e ampliou o sistema de fortalezas do litoral fluminense. O episódio, que culminou no rompimento de relações diplomáticas entre o Brasil e a Inglaterra, nação mais poderosa da época, começou com dois incidentes banais. Os ingleses exigiam uma elevadíssima indenização por uma carga desaparecida num navio naufragado e queriam o castigo de policiais brasileiros que prenderam três oficiais da Marinha da Inglaterra que estavam embriagados fazendo arruaça. Diante da negativa do imperador, os ingleses enviaram navios de guerra para aprisionar embarcações brasileiras. A crise acabou em 1865, quando o governo inglês pediu desculpas oficiais ao Império brasileiro.
As forças militares lutaram contra si pelo menos duas vezes. A primeira delas, em 1893, foi durante a Revolta da Armada, quando parte da Marinha se rebelou contra o governo de Floriano Peixoto e o baixo prestígio político que tinham, em comparação ao do Exército. A revolta conseguiu pouco apoio no Rio e seguiu em direção ao Sul, onde foi derrotada no ano seguinte.
O segundo episódio aconteceu logo após a construção do Forte de Copacabana, há 90 anos. Daí saíram os tenentes rebeldes que lutaram contra tropas legalistas que defendiam o governo de Epitácio Pessoa. A revolta ficou conhecida como 18 do Forte, uma das que aconteceram por todo o País durante a Revolução Tenentista.
Antes de saírem pelas ruas, sob a liderança do tenente Siqueira Campos, os rebelados de Copacabana atingiram com dois tiros de canhão o Forte Duque de Caxias, no Leme. As tropas legalistas não puderam revidar a afronta porque o Forte do Leme só possuía obuseiros (canhões que dão tiros curvos de longa distância para ultrapassar montanhas, porém de pouca precisão).
Entre o término das duas guerras mundiais, a maioria dos fortes foi desativada. ''Mantemos as instalações militares porque os soldados cuidam da manutenção, não faz mais sentido mantê-las para a guerra e a defesa'', afirmou o general Gílson de Aguiar, superintendente da Fundação Cultural do Exército (Funceb). (F.G.)





