Exemplo de preservação
Um dos principais entrepostos do Ciclo do Ouro (século XVIII), Paraty, no Sul Fluminense, é candidata a se tornar a primeira cidade do Rio de Janeiro declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
Estamos levantando dados para preparar o dossiê necessário à candidatura, afirmou a coordenadora de Ação Cultural e Turismo do Rio, Helena Severo, que está à frente do projeto. Na avaliação da coordenadora, a cidade reúne condições únicas no estado, tanto do ponto de vista histórico quanto ambiental. Paraty tem um conjunto edificado muito significativo e um patrimônio natural da maior importância, disse, lembrando que nos limites do município estão o Parque Nacional da Serra da Bocaina, a Área de Proteção Ambiental do Cairuçu, a Reserva da Joatinga e parte do Parque Estadual da Serra do Mar grandes extensões de Mata Atlântica preservada.
Paraty é considerada um dos sítios históricos mais bem preservados do País. O conjunto de edificações das 16 ruas que compõem o centro da cidade é um dos maiores exemplos da arquitetura dos séculos XVIII e XIX, período em que teve grande importância para o Ciclo do Ouro e para o Ciclo do Café.
Localizada a 265 quilômetros do Rio de Janeiro e a 300 quilômetros de São Paulo, a cidade foi fundada em 1667, junto à igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Nessa ocasião, separou-se de Angra dos Reis e recebeu o nome de Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paratii uma homenagem a sua padroeira. Ainda no século 17, a cidade alcançou alguma importância econômica. Chegou a ter mais de 250 engenhos e, até hoje, a palavra parati é sinônimo de boa aguardente. O apogeu econômico da cidade, no entanto, ocorreu no século 18, durante o Ciclo do Ouro.
Em 1702, um decreto governamental determinou que apenas o gado poderia ser transportado pelo Caminho do Sertão (pela Bahia). As demais mercadorias (inclusive o ouro) teriam de transitar pelo Rio de Janeiro, no chamado Caminho do Ouro da Piedade. A determinação aumentou intensamente o trânsito por Paraty, transformando seu porto no segundo mais importante do País por lá escoavam grande parte do ouro e das pedras preciosas provenientes das Minas Gerais com destino a Portugal.
O Caminho do Ouro partia de Minas Gerais, passava pela região da Garganta do Embu, pela Freguesia da Piedade (atual Lorena), seguia por Guaratinguetá e, finalmente, alcançava Paraty. Em 1703, uma carta régia determinava a instalação de uma Casa de Registro do Ouro na cidade, com o objetivo de controlar o fluxo do ouro das minas para o Rio de Janeiro. Até hoje, nas ruas do centro histórico da cidade, podem ser vistas edificações desse período.
A mais antiga é a Igreja de Santa Rita, o principal cartão-postal da cidade, que foi construída em 1722 por negros libertos. Fazem parte do conjunto preservado não só a igreja, mas também um consistório (sala de reunião dos padres), um cemitério e um pátio ajardinado.
Construída em 1725 e frequentada inicialmente por escravos, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito é outra relíquia do centro histórico que tem, ao todo, quatro templos. Outros destaques do centro histórico são o Chafariz da Pedreira e a Cadeia Pública, além de um vasto casario dos séculos XVIII e XIX.
A cidade começou a perder importância para o Ciclo do Ouro em 1767, quando nova rota de ligação entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro foi inaugurada, encurtando a viagem pela metade. Com a queda do tráfego de ouro, a rota passa a ser utilizada cada vez mais para o tráfico de escravos, para escoar a produção de café do Vale do Paraíba e para levar para os barões do café mercadorias trazidas da Europa.
Em meados do século XIX, a abertura de uma ferrovia ligando o Rio a São Paulo, através do Vale do Paraíba, fez com que a antiga rota perdesse sua função. A abolição da escravatura, em 1888, foi outro forte fator de decadência do comércio na cidade, levando a um grande êxodo: dos 16 mil habitantes da cidade, restaram apenas 600. Paraty acabou ficando isolada do País por várias décadas.
De certa forma, a estagnação econômica e o isolamento acabaram ajudando a preservar a cidade, analisou a coordenadora de Ação Cultural e Turismo do Estado, Helena Severo.





