EXCLUSIVO FESTIVAL - Um anjo entre a loucura e a arte
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quarta-feira, 28 de maio de 2003
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Uma das atrações mais aguardadas do Festival Internacional de Londrina (Filo), sucesso de público em várias cidades brasileiras, o espetáculo ''Anjo Duro'' estréia hoje no Núcleo I. Oportunidade para conferir o emocionte trabalho da atriz Berta Zemel no papel da psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), médica que revolucionou o tratamento de esquizofrênicos utilizando a arte como terapia. O monólogo foi escrito e dirigido por Luiz Valcazaras, de São Paulo, e marcou o retorno de Berta Zemel aos palcos depois de 25 anos.
''Anjo Duro'' que rendeu à atriz o prêmio Apetesp e uma indicação ao Prêmio Shell possibilita ao público um panorama da vida e do pensamento de Nise da Silveira, que morreu aos 94 anos. O espetáculo também pontua algumas ações na sua luta contra os tratamentos psiquiátricos radicais.
Enquanto nos demais hospitais os pacientes esquizofrênicos eram submetidos ao terror dos eletrochoques e da lobotomia, Nise da Silveira oferecia-lhes tintas e pincéis. As obras serviam para fazer o diagnóstico dos pacientes: eram uma radiografia da alma, segundo dizia.
Nise da Silveira foi cientista, pesquisadora, estudiosa e anjo de centenas de doentes que passaram por ela. Foi pioneira na luta antimanicomial, cujo dia nacional é comemorado em 18 de maio. A lei que define medidas mais humanas para os tratamentos psiquiátricos somente foi aprovada em 2001, depois de 12 anos de tramitação no Congresso.
''Anjo Duro'' é resultado de um processo de pesquisa desenvolvido há oito anos por Luiz Valcazaras, através do Núcleo de Investigação Teatral (NIT). Aliás, a experiência foi expandida. Em 2001, ele foi convidado pelo grupo londrinense Boca de Baco para dirigir o espetáculo ''Fando e Lis''. No ano seguinte, diretor e grupo implantaram o NIT em Londrina. Com base nesse trabalho, o grupo está preparando um espetáculo com dramaturgia de Marcos Losnak, que deve estrear em outubro. O processo também vem sendo aplicado em São Paulo com outro grupo de atores e dramaturgia de Evaldo Mocarzel.
A seguir leia entrevista exclusiva com Berta Zemel.
Como foi o processo de construção do espetáculo?
Foi um processo em que o Luiz (Valcazaras) e eu nos empenhamos durante dois anos. Começamos pensando em fazer ''Cartas a Spinoza'' mas ao mesmo tempo pensamos na Nise. De repente, conversamos e vimos que tínhamos o mesmo interesse em levá-la ao palco. A gente leu tudo da doutora, todos os pensamentos dela, tudo o que se falou sobre ela. A idéia era fazer ''Cartas a Spinoza'', inclusive íamos pedir o direito de fazer.
E aí a Nise falou mais alto?
Pois é. Houve um maior interesse sobre a vida dela. Foi uma pessoa muito humilde. Quando o Luiz foi visitá-la para pedir os direitos ela falou: ''Mas a minha vida é tão insignificante perto da vida do Spinoza''.
Em algum ponto Nise da Silveira se assemelha a você?
Fisicamente não.
Há alguma coisa nela em que você se encontra?
Várias. Ela foi muito importante como pensamento para mim. Algumas coisas de todas que ela fez, eu não consegui fazer. Ela foi muito forte e foi muito fundo e em tudo que faço, atualmente, me espelho nela. Ela foi a todas as áreas do conhecimento, da afetividade, do relacionamento humano... Ela não deixou nada raso.
Podemos dizer que essa personagem passa a ser, a partir de agora, seu cartão de apresentação como atriz?
Também é. Mas tenho outras perspectivas, outros caminhos a percorrer. Mas sempre com esse espelho da Nise, com certeza.
Em que, na sua opinião, o espetáculo fisga o público?
O mundo está passando por um momento de crise num sentido mais profundo que é o da ética, do comportamento, da afetividade. E a Nise é tudo isso: ela foi afetiva, ela respeitou o em torno dela. Ela respeitou tudo o que há em volta da gente: árvore, bicho, ar, tudo nela era feito com uma fragilidade, uma delicadeza que raramente se vê no ser humano. Isso toca demais, vai muito fundo na gente.
O que é loucura para você, Berta?
Antigamente loucura era a pessoa perder o senso da vida e do conhecimento. Depois da Nise, é um longo mergulho na subjetividade, nas coisas mais profundas que você tem e não diz a você mesmo. A doutura Nise diz o seguinte: 'há pessoas que fazem essa viagem porque querem, mas nem todas voltam. As que voltam, voltam às vezes renovadas, às vezes não'. Ela faz uma comparação muito interesse. O alpinista faz um esforço atlético enorme para chegar a alguma coisa que só ele dá valor. O homem que corre na pista de corrida, faz um esforço enorme para correr 500, 600 quilômetros por hora. E alguém que faz uma viagem para dentro de si próprio, não há respeito. Ou seja, você dá valor aos atletas porque fazem esforços e ao homem que faz uma viagem para dentro de si é chamado de louco. Tem que se respeitar a pessoa que quer se conhecer a si próprio.
Vinte e cinco anos é muito tempo para se ficar longe dos palcos? Você se desencantou?
Não, ao contrário. Eu não parei, eu só não entrei no palco. Tenho uma escola de teatro. São cursos livres. Durante todo esse tempo montei muitos espetáculos com atores saídos desses cursos. Nunca me desencantei do palco, eu desencantei com a situação que a gente vivia. Houve uma época, da repressão, em que entramos com tudo em São Paulo e fomos muito reprimidos, tivemos muitos problemas pessoais meu marido (o ator Wolney de Assis) e tal... E eu precisei ficar em casa para receber pessoas que precisavam de um cantinho para pensar.
Projetos novos?
No cinema, acabei de estrear o ''Desmundo'', com direção do Alain Fresnot. Estreou ontem (anteontem) no Rio de Janeiro e na segunda-feira em São Paulo. Com o filme, ganhei um prêmio ''Candango'' (de melhor atriz coadjuvante no 35º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro). Novelas fiz poucas. Eu tenho tido muitos convites para fazer televisão, mas tenho a escola em São Paulo, fiz cinema, estou com essa peça, então estou dando preferência a essas coisas.
As pessoas sempre vão se lembrar de você como a eterna Vitória Bonelli. É uma boa referência?
Como dizem as pessoas de televisão, é uma vitrine. A televisão ajuda a ser conhecido porque no teatro há um grupo muito pequeno, mas justo e afetivo que te acompanha a vida inteira.
Muito obrigado, Nise, aliás, Berta. Estaria tão equivocado assim ao confudi-la?
(risos) Não, acho que é a mesma coisa.
(Colaborou Jackeline Seglin)
FICHA TÉCNICA:
''Anjo Duro'', monólogo da atriz Berta Zemel, de São Paulo. Texto, direção, iluminação, cenário e trilha sonora: Luiz Valcazaras. Figurinista: Ivany Grain. Direção de produção: Aline Grain. Produção: Gustavo Kalvert. Duração: 50 minutos.


