EXCLUSIVO ENTREVISTA - Um gladiador em nova arena
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de setembro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha 2 
Manso, ordeiro, paciente e simpático, bem diferente daquele sujeito mal-encarado e violento que há três meses, em Nova York, agitou a crônica policial depois que arremessou um telefone na cabeça do recepcionista de um hotel, Russel Crowe fez a alegria dos fãs e a tristeza dos paparazzi, que não puderam registrar em Veneza nenhum deslize na conduta do ator. Um Crowe de nobres sentimentos. E mais uma vez um lutador, agora nos ringues e não mais nas arenas romanas de 'Gladiador'.
O filme que ele protagoniza ao lado de Renée Zellwegger, ''A Luta Pela Esperança'' em cartaz no Brasil desde sexta-feira , passou fora de concurso na mostra veneziana e foi de longe o mais aplaudido nas sessões para o público, embora não se possa dizer que os jornalistas também não tenham aderido a esta narrativa em estilo sólido e clássico. A produção é Hollywood em suas melhores intenções, recheada de bons sentimentos, muita emoção e altruísmo, exemplo de vida bem ao estilo ''superação pela segunda chance''.
É a história verídica outro ponto estratégico do pugilista James J. Braddock, que se tornou uma espécie de símbolo da resistência contra a adversidade. A duras penas o personagem supera os anos terríveis de desemprego e fome durante a Grande Depressão, mantendo unida uma família mulher e três filhos ameaçada de fragmentação. Com fé e obstinação, Braddock ressuscita para a glória nos ringues, tornando-se campeão mundial em sua categoria. Para além do marketing, parece mesmo que Crowe vestiu a camisa de Braddock como símbolo de resistência. Aliás, para a entrevista ele apareceu com um agasalho verde e branco onde se lê a inscrição ''North Bergen'', o nome da cidade de Nova Jersey onde nasceu Braddock. A seguir, alguns trechos da entrevista.
Por que interpretar um personagem como Braddock?
O filme de Ron Howard é baseado na classe operária mais sofrida dos Estados Unidos. Este é um tema que atravessa toda a história do legendário pugilista. Sim, eu escolhi o filme porque também queria descobrir de qualquer maneira a força do homem diante da terrível adversidade, a coragem de lutar. Foram os valores morais de Braddock, a sua identidade de verdadeiro herói popular capaz de pedir o auxílio-desemprego para alimentar a família e depois devolvê-lo, que me levaram para perto de Ron (Howard) no seu projeto.
Como foi a preparação para o papel?
Me empenhei como nunca. Estudei farto material fotográfico e cinematográfico sobre o boxe, estudei movimentos e expressões dos pugilistas durante as lutas, estudei enfim toda a arte do pugilismo.
E a parte física?
Nada fácil, nada fácil. Perdi muitos quilos durante os treinamentos. Fiz corrida, caiaque, muita corda. Mas o melhor para mim foi que o meu Braddock me ensinou também a chorar. Li as cartas de amor que o pugilista enviou a sua mulher. Os dois estavam sempre juntos, até na mais feroz miséria. Meus pais imigraram para a América sem dinheiro, e nos ensinaram os valores, o orgulho da pobreza. Me lembrei disso interpretando o filme. Por isso se engana quem diz que ''A Luta Pela Esperança'' é uma fábula dos bons sentimentos. É uma fábula dura de ontem e hoje, de amor, de punhos e de dor vital. Pela sobrevivência.
No filme, o seu lado pai se manifesta com enorme convencimento. E não é segredo sabe que sua família vem antes de tudo (NR: o incidente em Nova York com o telefone teria sido porque o ator não conseguia uma linha para falar com a família na Austrália...)
Nada pode se comparar com a experiência da paternidade. A relação com um filho é enriquecimento cotidiano, é contato com a realidade. Para mim é a verdadeira vida. Tornar-se pai, aconselho a todos!


