''Estou orgulhoso deste prêmio. 'Brokeback Mountain' é o pequeno filme que eu quis fazer depois de duas superproduções. Sinto que é uma história rica de boas vibrações, e fico feliz porque quem o assistir sairá do cinema falando não só de gays, mas principalmente de uma grande história de amor''. Assim o diretor Ang Lee sintetizou sua emoção durante a apressada entrevista coletiva com todos os ganhadores na noite do último sábado, logo após a cerimônia de premiação que consagrou seu trabalho como o melhor da mostra veneziana.
Lee, taiwanês radicado nos Estados Unidos desde 1978, é titular de uma curta, mas importante e mundialmente reconhecida filmografia. ''O Banquete de Casamento'', de 1993, que também abordava em chave de comédia a questão gay, daria a ele o primeiro grande troféu internacional, o Urso de Ouro de Berlim. A seguir, ''Comer, Beber, Homem, Mulher'' foi um colecionador de nominações, inclusive do Oscar de filme estrangeiro.
E então veio ''Razão e Sensibilidade'', de 1995, com sete indicações para o Oscar, inclusive de melhor filme, e vencedor do Globo de Ouro e do Urso de Ouro em Berlim. ''Tempestade no Gelo'' foi o sucesso seguinte (melhor roteiro em Cannes-97). Seguiram-se o western ''Cavalgada com o Diabo'', o pioneiro da fase atual de artes marciais, ''O Tigre e o Dragão'' (Oscar de melhor estrangeiro em 2000) e a direção ''por encomenda'' no blockbuster ''Hulk'', em 2003, enorme bilheteria e críticas não muito simpáticas.
''Brokeback Mountain'', que será lançado nos Estados Unidos no dia 9 de dezembro mas ainda sem previsão de data para o Brasil, é baseado em conto de Annie Proulx e foi adaptado pelos também escritores Larry McMurtry (''A Última Sessão de Cinema'') e Diana Ossana, um trio de ganhadores do Premio Pulitzer, o Oscar da literatura americana.
Tendo como pano de fundo as extensas paisagens do Wyoming e do Texas, o filme conta a história de dois jovens o rancheiro Ennis Del Mar (Heath Ledger) e o cowboy de rodeio Jack Twist (Jake Gyllenhall) - que se encontram para trabalhar juntos no verão de 1963. Inesperadamente, os dois dão início a uma duradoura relação cujas complicações, alegrias, tristezas e tragédias vão sedimentar uma espécie de testamento baseado na durabilidade e no poder do amor.
O assédio da imprensa a Ang Lee é sempre grande em circunstâncias normais. Mas diante de um argumento com temática não exatamente convencional como a de ''Brokeback Mountain'', entrevistas com o diretor foram desta vez ainda mais cobiçadas. A Folha conversou com Lee alguns dias antes que o júri atribuísse a seu filme o Leão de Ouro. A seguir, os principais trechos registrados durante este encontro.

O que exatamente o atraiu nesta história?
Se um projeto não é intimidante, desafiador ou sensível, será sempre menos interessante para mim. Logo após o ''O Tigre e o Dragão'', eu procurava o próximo filme quando meu produtor James Shamus disse que ele tinha um material interessante. Li então o conto de Annie Proulx. Ao final da narrativa eu tinha lágrimas nos olhos. Depois li o roteiro, que ainda não tinha dono, e vi que era não só fiel, mas também uma ótima adaptação. Verdadeiramente é um filme sobre dois heróis lutando contra tudo para preservar seu amor. Sempre considerei ''Brokeback Mountain'' como nada menos do que uma épica love story, não somente americana, mas universal.

Mas entre ''O Tigre e o Dragão'' e ''Brokeback Mountain'' houve um intervalo de quatro anos e um ''Hulk''...
Pois é, dois anos depois daquela conversa com Shamus, eu perguntei a ele: ''O que aconteceu com ''Brokeback Mountain''? Alguém já está filmando? Porque simplesmente não consegui tirar aquela história da cabeça!''. E Shamus acabou comprando os direitos, e eu pensei em fazer o filme imediatamente, caso contrário me arrependeria pelo resto da vida.

Como foi a escolha dos dois atores, Jake Gyllenhaal e Heath Ledger, que oferecem ótimas interpretações?
Decidi arriscar e busquei um elenco mais jovem. É uma história sobre quem tem 20 anos, e por isso fui atrás de gente jovem de verdade, com inocência e ingenuidade, gente que acredita no que está fazendo. Eles se esforçam por eles mesmos, e você não precisa dirigi-los exaustivamente. Nada recompensa mais um realizador do que jovens atores que ouvem e então aparecem com grandes resultados. Eu já sabia que Jake era um grande ator. Eu o encontrei antes em Nova York, onde me disse: ''Quero muito estar neste filme''. Ele estava totalmente motivado. E quanto a Heath, ele já havia confirmado a participação sem nem mesmo ter me encontrado ou falado comigo. Acho que isso explica tudo.

Nos seus filmes, o senhor, de certa forma, é ao mesmo tempo conservador e progressista. Respeita o passado e as tradições, mas seus personagens, homens e mulheres, são aqueles que não se enquadram em categorias sociais, aqueles que estão sempre lutando por suas liberdades individuais num meio repressor. O mesmo ocorre em ''Brokeback Mountain'' com os dois cowboys, não?
Meus personagens aqui estão no Oeste americano, com valores tradicionais e machistas. São um pouco mais complicados. Tudo o que eles sentem é preciso manter em segredo. É precioso, dramático para mim, e alguma coisa especial que eles não podem articular. Os cowboys são muito tímidos, e falam muito pouco, é difícil arrancar deles algum tipo de discurso. Com ''Razão e Sensibilidade'' fiz um filme sobre a cultura verbal. Aqui o roteiro é exatamente o contrário, a cultura não verbal do Oeste. Foi bem mais difícil, porque, se os personagens não se comunicam verbalmente, como vão expressar seus sentimentos?

Curiosamente, ''Brockback Mountain'' tem o recorte de um western clássico, mas subverte valores que sedimentaram cinematograficamente o gênero. Está correto o raciocínio?
Conhecemos o Oeste do cinema como o romantizado universo dos pistoleiros. Mas o verdadeiro Oeste, este não acredito que qualquer pessoa conheça muito bem. Eu, por exemplo, que vim de muito longe, de Taiwan, pensava a América como se fosse somente Nova York e a costa leste. Mas há esta incrível, imensa vida rural americana que de fato conhecemos pouco. O filme é uma 'love story' sobre esta gente, e Brokeback Mountain é o núcleo simbólico de tudo, é elusivo e ambíguo. É alguma coisa que você quer manter para poder voltar um dia, mas provavelmente nunca fará isso. Para os dois cowboys, é o sentido do amor.

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