É um ponto negro, quase invisível no horizonte. O louro e pálido Lawrence-Peter O'Toole olha sem saber o que é, ou quem é. Vai chegando lentamente, o tempo real da marcha de um camelo captado pela câmera imóvel do diretor David Lean, naquela que é talvez a cena mais virtuosística de toda a carreira do diretor inglês. Aos poucos, o ponto negro cresce, e se transforma num imponente homem do deserto, o xeque Ali Ibn El Kharish. Pele acobreada, olhos úmidos, sorriso assassino. Naquele momento, Omar Sharif, nascido Michael Shallhoub, até então um desconhecido ator egípcio, salta do árido anonimato do deserto para as delícias do oásis de fama e fortuna.
Fama que durou apenas uma década. Depois de sucessos (principalmente com o publico feminino) como ''Dr. Jivago'', ''Mayerling'' e ''O Rolls-Royce Amarelo'', o olhar lânguido do sedutor e o fascínio de casos amorosos nos bastidores das filmagens e nas mesas dos cassinos não foram suficientes para transformar o ícone passional em ator de primeira linhagem. E a partir dos anos 1970, o gentil e simpático Omar Sharif foi envelhecendo com exímia reputação nas rodas de bridge, e com preguiça e desinteresse nas telas, recolhendo toda espécie de papéis capazes de financiar um vicio aberto a todas as modalidades.
O Leão de Ouro pela carreira que ele recebeu dia 30 de agosto no Festival de Veneza teve duas justificativas. Pelos méritos de uma trajetória artística iniciada no Egito há exatos 50 anos, e que incluiu mais de 80 títulos para cinema e tevê, e como testemunho da integração possível mas ainda não obtida entre mundo árabe e ocidente. Valeu o assédio, antes por e-mail, ainda no Brasil, e depois em Veneza: a Folha foi afinal contemplada com 25 minutos na comprimida agenda de entrevistas de Sharif. À entrada da suíte do Hotel Excelsior, a expressa recomendação da asssessoria do ator: sob qualquer pretexto, nenhuma referência ao incidente, dias antes do festival, que levou Sharif a agredir um policial durante uma discussão. Motivo: a perda de 30 mil euros na roleta, em Paris. A seguir, trechos selecionados da entrevista concedida com exclusividade.
''Monsieur Ibrahim e as Flores do Alcorão'', o filme que o senhor interpreta e que está aqui em Veneza fora de competição, trata da transmissão de valores, aqueles que um velho muçulmano de fé passa a um adolescente judeu na Paris dos anos 60. Isto seria possível nos dias de hoje?
Eu não encaro o filme de um ponto de vista puramente político. O velho é sozinho, sem amigos ou família. O garoto é sozinho: a mãe abandonou a casa e o pai deprimido não o compreende. É natural que se encontrem. Religião, nacionalidade, língua, nada disso tem a ver. Apenas se querem bem.
É também a sua maneira de encarar a história?
Divido as pessoas em duas categorias: as boas de coração e as más de coração. Com as primeiras procuro me relacionar. As outras, não quero nem ver. Não coloco rótulos. Brancos, negros, amarelos, cristãos, muçulmanos, budistas, judeus. Para mim nada disso conta.
O que significa um filme como este, hoje em sua vida?
Chorei quando li o roteiro. Neste tempo em que o mundo chora, e não somente pelo 11 de setembro, mas pelo que aconteceu em Ruanda e pela guerra em muitos outros lugares, devo pegar aquele garoto pela mão e transmitir-lhe alguma coisa, mas sabendo que jamais se pode ensinar experiência porque cada um deve conquistá-la sozinho.
O senhor teve tudo, dinheiro, mulheres, sucesso, Hollwyood. E hoje?
Hoje é o presente, é preciso conviver com as lembranças ao longo da estrada, com o meu amor pela ópera, o sorriso tímido de meus netos a quem você devo sempre repetir que com a vida é preciso saber jogar certo.
O senhor jogou com muito dinheiro. E também com a carreira...
Os filmes que fiz com Fred Zinnemann, Francesco Rosi, Blake Edwards, Herbert Ross, William Wyler, Andrzej Wajda, todos foram mal. Verdadeiros fracassos. Tudo é um jogo de xadrez, palavra de um campeão de bridge.
Conheceu e amou atrizes e mulheres belíssimas e de talento. Também foi um jogo?
Barbra Streisand (NR: parceira do ator em ''Funny Girl'' e ''Funny Lady'') era diferente de todas, mas Sophia Loren (''Felizes para Sempre'') à noite cozinhava spaghetti com sensualidade. E quando estive com Ingrid Bergman (''O Rolls-Royce Amarelo'') foram momentos de religiosa beleza.
Por que tem feito tão poucos filmes nestes últimos anos?
Para mim sempre foi um problema encontrar papéis adequados. E agora que envelheci, o problema ficou sem solução. Sou um egípcio que trabalha em produções internacionais. Um caso único. Quando eu era jovem e meu nome fazia bilheteria, os produtores adaptavam para mim os roteiros. Mas agora que estou velho, por que fariam isso? Há tantos atores velhos em cada país, um estrangeiro não é necessário.
Como se sente atualmente?
Um sobrevivente. Trabalhei muito, mas nos últimos 25 anos não fiz nada de bom. Por isso acho que ''M. Ibrahim'' é a última grande chance que a carreira me oferece. Um belo roteiro, escrito com palavras justas e inteligentes. Espero que o público, quando assistir, entenda que para viver bem os homens devem dialogar entre si. Mesmo os israelenses e palestinos. Mas quanto a estes não sou otimista. Talvez meus filhos, ou os filhos dos meus filhos vejam o fim deste conflito.
Meu filme de cabeceira é ''Lawrence da Arábia''. É um dos títulos que o levaram à fama. O outro é ''Dr. Jivago''. Qual dos dois é seu preferido?
Creio que ''Lawrence'' merece ser considerado um filme importante. O outro não. Eu sei, ''Jivago'' agrada às mulheres. Mas para meu gosto é muito sentimental.

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