EXCLUSIVO - Senhora da voz atemporal
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terça-feira, 26 de abril de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Pés descalços, Maria Bethânia vai pisar no palco do teatro Guaíra hoje, em Curitiba, com a plena certeza de que o tempo inclusive o cronológico lhe foi muito generoso. E ao ''compositor de destinos'', ela retribuiu a gentileza dando ao espetáculo o nome de ''Tempo, Tempo, Tempo, Tempo''. São 40 anos de trajetória marcada por passos seguros, verdadeiros, coerentes com o que o que canta, gesticula, declama, desenha e redesenha em cena. Tudo envolto em uma mitologia instaurada, à revelia, sobre sua tesa postura artística e pessoal. Bethânia envaidece-se, mas sua humanidade pede para não apegar-se a títulos, mesmo aqueles encharcados de carinho. Ri, por exemplo, quando toma conhecimento de um crítico a considerou a maior atriz da música brasileira. ''Sinto que é uma maneira de expressar amor, admiração. Às vezes de maneira exacerbada. Esse negócio de ser a melhor atriz da música brasileira é engraçado, mas me toca profundamente'', disse Bethânia em entrevista à Folha2.
É no palco o local ideal para conhecer a grandeza da arte dessa senhora cantora, que orgulha-se dos 58 anos e dos cabelos brancos. É na ''arena'', palavra herdada de Bibi Ferreira, que Maria Bethânia evoca a intérprete não só no cantar como nas atitudes cênicas. Em ''Tempo, Tempo, Tempo, Tempo'' há um adendo, um acréscimo sentimental já que rende homenagem a Vinicius de Moraes e outros grandes compositores que a atravessaram nas quatro décadas de carreira claro, Chico Buarque e Caetano Veloso (de quem foi buscar o título do espetáculo através de ''Oração ao Tempo), além de canções inéditas.
Arranjo, regência e violão ficam por conta de Jaime Alem. Os demais companheiros de trabalho: João Castilho (violão e guitarra), João Carlos Coutinho (piano), Rômulo Gomes (baixo), Márcio Mallard (violoncelo), Marcelo Costa e Reginaldo (percussão). A elogiada cenografia é assinada por Daniela Thomas e Márcia Moon. A iluminação é de Maneco Quinderé. Na direção, Bia Lessa.
A seguir os principais trechos da entrevista que Maria Bethânia, muito bem-humorada, concedeu à Folha2 em que fala da sua relação com o palco e também algumas curiosidades.
Alguma observação sobre o público paranaense, especificamente sobre o público curitibano?
Não é uma observação minha, mas uma observação do Brasil e de artistas do exterior: Curitiba é considerada a cidade com o público mais bem informado, mais sofisticado e por consequência mais exigente. É um público mais aberto as novidades e por isso todo o movimento cultural de Curitiba se expande muito no Brasil e no mundo. E isso é muito bacana. É sempre um estímulo se fazer um espetáculo novo e apresentar em Curitiba. Para mim é importantíssima essa apresentação. Tenho muita vontade de saber de como será o sentimento, o olhar e a receptividade do curitibano nesse show comemorativo aos quarenta anos de carreira.
Você se classifica como uma intérprete e não uma cantora. Quando essa intérprete sobe ao palco de um teatro, ela evoca personagens ou busca emoções, reminiscência ou pessoas para se bastar?
No meu jeito de trabalhar eu empresto muitas sensações, emoções, muitos sentimentos da minha própria vida a personagens que Chico, Caetano, Gil, Vinicius, quem quer que seja, tenha escolhido para aquela canção naquele momento. Empresto muito minha vida. Minha vida, na verdade é para isso: ficar entregue o tempo inteiro para poder ter elementos para subir ao palco e não estar vazia.
No palco você isenta-se de maiores medos ou é preciso ter determinadas atitudes ou doação para obter contrapartida?
No palco não tenho medo de nada. No palco é um outro pensamento. A disciplina que eu tenho pelo palco é rigorosa e adorável. Não pense que quando falo ''rigorosa'', que me custa. Não, ao contrário, é tudo com prazer. Não sei te dizer, mas sei que nasci para fazer isso.
Você não se imagina fazer outra coisa a não ser em cima de palco, não?
Sempre soube desde menina que eu trabalharia em palco, alguma coisa ligada à arte, não sabia se era cantando, dançando, representando. Isso ou trapézio. Sou louca por trapézio.
Que loucura!! Mas essa coisa de estar no palco tem algo a ver com se lançar às emoções, não?
É. Digo que estar no palco é estar no trapézio sem a rede.
Há realmente a necessidade de um diretor? Você não se imagina dirigindo um espetáculo próprio?
Não, não. Eu preciso da orientação da dramaturgia de alguém muito importante de teatro, que saiba lidar com a alma e que tenha a noção do que seja a arena. Ah, eu sou caprichosa, estudiosa. Eu tenho uma coisa bacana que todos os diretores reconhecem e dizem: ''você não nos trai em cena''
Por que você sempre se apresenta descalça?
(risos) Foi uma coisa sem pensar. Ainda na Bahia, nós amadores, Caetano, Gil, Gal, eu Tom Zé, Pitty, Alcivando. No nosso primeiro show duas coisas foram estabelecidas para o resto de minha vida que não sei explicar. A Gal entrou de vestido preto e eu de vestido branco. Outra coisa, cada uma de um lado do palco. E quando Caetano chamava, entrávamos: Gal com vestidinho preto e sapatinho preto e eu com meu vestidinho branco com sapatinho branco... Quando disseram: ''Maria Bethânia e Gracinha'', não sei o porquê, mas eu tirei o sapato e entrei.
Nesse espetáculo, 'Tempo, Tempo, Tempo, Tempo' você evoca Vinicius, mas também há reverências a Chico e Caetano.
(Interrompendo) Chico, Caetano e atenção: todos os grandes compositores brasileiros. Os dois, de fato, são mais presentes no meu repertório, na minha discografia.
O tempo burilou a voz ou a voz passou por temperos técnicos, aulas de canto ou coisa que o valha?
É o tempo, é o tempo. Nunca fiz aula de voz. Segui o conselho de uma grande senhora da voz, professora de canto, chamada Clarice, quando cheguei no Rio de Janeiro, aos 17 anos. Ela viu minha estréia no espetáculo 'Opinião', me chamou, me beijou e disse muito comovida: ''não deixe nunca ninguém chegar perto do seu timbre. Não admita lhe ensinarem técnicas e maneiras porque esse seu timbre, os metais de sua voz são intocáveis''. Foram palavras dela que me passou dois exercícios para respirar. E só!
Olha só!
E depois, mais tarde, duas cantoras líricas que tenho profunda admiração, que não vou citá-las por serem pessoas muito famosas, e por gostarem muito do meu timbre, me ensinaram mais alguns exercícios de respiração.
58 anos. Quais trunfos você carrega? Quais vaidades prevaleceram? O que você conseguiu a essa idade?
(pensativa) Eu acho primeiro que é sorte. Depois procuro fazer da minha vida a mais verdadeira possível, que me condene ou me sacrifique o menos possível. Procuro viver do meu jeito, que é muito interiorano, muito quieto. Para algumas pessoas pode até parecer um pouco do boçalidade, mas não é. Sou assim, interiorana, quietinha, dentro de casa, não sou de muitos amigos. Gosto de mato, de bicho, de gente...
Como é a sua casa?
Minha casa é muito simples, minha casa é no meio mato. Tenho uma irmã maravilhosa que diz: ''nem parece casa de artista''.
Sério? Isso que é crítica!
(risos) É uma crítica maravilhosa, fico honradíssima. Minha casa é de uma simplicidade, tudo chega a ser quase austero de tão pouco. É simples, mas é uma casa linda, com uma vibração linda, o local mais sagrado depois da igreja de Nossa Senhora da Purificação, qualquer santuáruio e do alto do Gantois. É localizada num lugar belíssimo, majestoso, ao pé da pedra da Gávea, na frente do mar, dentro da floresta. E é uma casa que foi visitada por Tom Jobim, Clarice Lispector, Vinicius de Moraes...
Uma última curiosidade. Você sempre carrega no pescoço um colar com uma caixinha dourada. É um amuleto, Bethânia?
É. Ganhei de minha mãe Menininha do Gantois. E daí você pode imaginar o tamanho do significado.
Serviço:
- ''Tempo, Tempo, Tempo, Tempo'', espetáculo com Maria Bethânia, hoje, às 21 horas, no Teatro Guaíra, em Curitiba. Ingressos a R$ 85,00 (platéia), R$ 75,00 (1º balcão) e R$ 50,00 (2º balcão). Informações (41) 304 7900 e (41) 304 7982


