Ele se define como ''o último dos produtores independentes nos Estados Unidos''. E fundamenta: ''Quando quero comprar um livro para fazer um filme, compro com meu dinheiro, não recorro a um estúdio. Se isto ocorrer, você termina como empregado e, para cada decisão que deve tomar, tem que se sentar e discutir com quarenta pessoas''. Tanta deliberação, tanta conversa não é para ele: desde muito jovem Dino De Laurentiis se acostumou a tomar decisões por sua conta. Prefere correr o risco de se enganar, mas fazendo as coisas à sua maneira. ''Perdi muitos dólares com isso, mas nunca me tornei escravo. Continuo sendo meu próprio chefe'', profere orgulhoso com a voz grave. Quase um rugido.
E de fato ainda é fera. Aos 84 anos, lúcido, ativíssimo, foi ao Festival de Veneza como convidado de honra era o outro Leão de Ouro especial, ao lado de Omar Sharif. Mas não foi apenas uma visita festiva. Depois de receber o prêmio, entregue por Bernardo Bertolucci e dedicado pelo homenageado a um ''futuro livre e exportável do cinema italiano'', o velho mas ainda muito astuto leão foi à caça. Como produtor, tratou de mobilizar o exército da mídia para promover seus próximos projetos, um colosso de U$ 150 milhões sobre Alexandre Magno, dirigido por Baz 'Moulin Rouge' Luhrmann e interpretado por Leonardo Di Caprio filmagens previstas para 2004 na Austrália e Marrocos, com estréia provável no verão ou no Natal de 2005. E tambem outro filme da série com o canibal Hanibal Lecter.
Poucos produtores em atividade podem exibir como ele uma filmografia tão vasta mais de 120 títulos e diversificada. Além de superproduções menos recentes como ''Ulisses'', ''Guerra e Paz'', ''Barbarella'', ''Flash Gordon'' ou ''Conan'', seu nome está ligado ao de grandes diretores como Visconti (''O Estrangeiro''), Bergman (''O Ovo da Serpente'') e Milos Forman (''Ragtime''), entre outros.
Como todo bom vendedor, Dino De Laurentiis colocou em simpática disponibilidade seu principal produto: ele mesmo. Em Veneza, durante todo o Festival, quase não deu conta das entrevistas, entre elas para a Folha2, com exclusividade para o Brasil. A seguir, os principais trechos.
A pergunta mais óbvia, para começar: como é manter esse ritmo na sua idade, trabalhando num meio onde a concorrência e tão frenética?
A idade não conta, se se conserva os três C: coração, cérebro e coragem. E, claro, também a paixão. Cada filme tem sua história e apresenta problemas diferentes. Por isso o cinema é tão estimulante para os espíritos criativos.
Como o senhor, um produtor italiano mas de carreira internacional, analisa o cinema italiano?
O cinema americano é poderoso porque é livre para fazer o que bem entende. A Itália era competitiva nos anos 1960 porque éramos livres para filmar aquilo que queríamos. É preciso voltar àqueles tempos, de liberdade criativa e do empreendimento. Sem isso não se vai longe. Os filmes italianos, em língua italiana, são provincianos, nascem aqui e morrem aqui. E esta nova lei de cinema é péssima (NR: durante o Festival de Veneza, o ministro da Cultura da Itália anunciou novidades na legislação cinematográfica) e vai contra o mercado, é filha daquela antiga que me forçou a ir para a América nos anos 1970. Não se pode esquecer que o mercado é global, que não se podem apenas em alguns casos filmar só em italiano. Dinheiro se recupera com DVD, tevê a cabo e exportação, e com certeza não com o publico nas salas.
Os filmes deveriam então ser feitos em língua inglesa?
Absolutamente não. Filmes tipicamente italianos que eu mesmo produzi, como ''A Estrada da Vida'', ''Noites de Cabiria'' ou ''A Grande Guerra'', foram falados em inglês. Mel Gibson acaba de rodar uma história de Cristo falado em aramaico, e terá distribuição garantida. Minha receita é simples: é preciso deixar ao produtor e ao diretor a plena faculdade de escolher. Na Itália temos autores de talento que poderiam se tornar os novos Fellini, Antonioni ou Rossellini. E a Europa tem potencialidade para ser competitiva com a América, aqui há 450 milhões de espectadores potenciais contra os 300 milhões de americanos.
Mas para existir esta autonomia é preciso dispor de capital. Liberdade para produzir também significa recursos, ou não?
Todo mundo pensa que para fazer cinema é preciso só o dinheiro. Não é assim, também as idéias são necessárias. Quando produzi ''Guerra e Paz'' não tinha uma lira, mas propus o projeto a Paramount, que se entusiasmou e o financiou. Paralelamente eu estava produzindo também ''Noites de Cabiria'' e ''A Estrada da Vida'', ambos de Fellini, e então eu disse a eles da Paramount que se quisessem ''Guerra e Paz'' teriam que financiar também os outros dois. E assim foi.
No dia em que o senhor recebeu seu Leão de Ouro, foi anunciada a morte de Charles Bronson, ator de vários filmes produzidos por sua companhia, entre eles ''Desejo de Matar'', grande sucesso comercial.
A notícia me comoveu, Charlie era meu amigo de muitos anos, uma pessoa de coração enorme, um ator característico, duro, com uma cara sempre feia, uma expressão implacável, mas por dentro ia uma grande suavidade. Era uma pessoa doce, sua morte me comoveu muito.
A idéia de voltar a trabalhar na Itália anima o senhor?
Venho à Itália para rever amigos os amigos e para comer bem. Mas para cinema, por caridade: muita carta marcada, muita burocracia...
E este novo ''Alexandre Magno'' que o senhor anuncia, com Baz Lurhmann na direção e Di Caprio no papel-título?
É um desafio ao futuro. Será um filme sobre jovens e para jovens, a mais bela história depois da de Jesus Cristo. E com Lurhmann conduzindo, pode apostar!

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