EXCLUSIVO - Corsário de fino trato
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sábado, 06 de setembro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza<br> Especial para a Folha 2 
Há pouco entrado nos 40, Johnny Depp, à frente das bilheterias americanas com a superprodução ''Piratas do Caribe'', por si só já é um personagem à parte. Parece não estar nem aí, mas está, com certeza. Sua planejada mise-en-scène de sem-teto chique e colunável é isso mesmo, planejada. Chegou ao Festival de Veneza na comissão de frente para a pré-estréia mundial do filme de Robert Rodriguez, ''Once Upon a Time in México'', o terceiro e último da série com Antonio Banderas como o pistoleiro El Mariachi (Depp faz um execrável agente da CIA). Na aparência cuidadosamente descuidada é o próprio pirata: cabelos castanhos longos com mechas louras, aparentemente sujos mas com certeza bem tratados, uma insistente barba rala, tatuagens, camisa branca em tecido finíssimo e aberta no peito, jeans em frangalhos, pelo menos uma dezena de braceletes no pulso e várias correntes no pescoço.
E como as aparências quase sempre enganam, quando começa a falar é quase um gentleman, um suave interlocutor de fino trato, voz baixa e pausada, paciente até demais com a alta rotatividade de entrevistas programadas pela assessoria de ''Once Upon a Time in Mexico''. Agora ele não é mais o ''bad boy'' que destruía quartos de hotel nos tempos das relações tumultuadas com Winona Ryder e Kate Moss, típicas de uma geração rebelde de Hollywood. Hoje Johnny Depp está longe da América, vive numa villa da Provence com a mulher, a cantora e atriz Vanessa Paradis, e com os filhos Jack John Christopher, de um ano, e Lilly Rose, de quatro.
Antes da entrevista, pede licença e, com gestual estudado que faz lembrar o ''método'' do Actor's Studio tira a bolsa de fumo e manufatura um quase disforme cigarro artesanal, mas do tipo legalmente tolerado. A seguir, os principais trechos da entrevista que o ator deu com exclusividade à Folha2 nos tranquilos jardins do Hotel Des Bains
Em todos os seus filmes, de ''Edward Mãos de Tesoura'' a ''Donnie Brasco'', a amizade parece um valor importante para seus personagens. Isto na ficção. E em sua vida privada?
É fundamental. Não me interessa o dinheiro, a fama, a competição. Sou amigo dos atores que estimo Sean Penn, Al Pacino, John Malkovich, Edward Norton, John Turturro, e dos diretores que escolho, de Tim Burton a Robert Rodriguez. Sou amigo de minha mulher e, afinal, me tornei, digamos, psicologicamente amigo de muitos escritores por causa de meus papéis nos filmes.
Dá até para pensar em você como amigo de piratas e de agentes duplos, julgando por estes últimos dois filmes, ''Piratas do Caribe'' e ''Era Uma Vez no México''...
Com certeza para o filme sobre piratas é claro que me tornei ''amigo'' deles, revendo os seus filmes, em especial aqueles com Errol Flynn, o mais notável corsário, lutando sozinho contra todas as bandeiras. Mas para o papel me inspirei mesmo foi nos músicos. Naquela figura genial do ''pirata'' Keith Richards, e em certa aventureira rouquidão de meu mito Tom Waits. Acho que inconscientemente também pensei em Marilyn Manson porque sempre me agradou sua escolha travestida de se vestir e a substância de sua música.
E quanto a este filme de Robert Rodriguez, hors-concours em Veneza?
No que se refere a este personagem, embora seja um corrupto agente da CIA, eu na verdade me sinto como um daqueles cavaleiros de um filme de Sergio Leone. Até acompanhei Banderas, que é autor de uma música, e Salma Hayek, que também canta no filme. Compus uma canção para a trilha sonora deste filme, que utiliza a música como elemento criativo que integra as imagens.
Quais os planos imediatos?
Estou para começar as filmagens do segundo round desta história de piratas, que tanto agradaram meus filhos. Mas estou me sentindo bem melhor ainda agora que estou interpretando um escritor em ''The Secret Window'', baseado em livro de Stephen King. Meu personagem é o do alter ego do autor de ''O Iluminado'', perseguido por um assassino. Lá pelo Natal espero conquistar de novo as crianças e também os adultos em ''J. M. Barrie's Neverland'' (NR: ''A Terra do Nunca de J. M Barrie'', o autor de ''Peter Pan''), em filme ambientado na Londres edwardiana. Estou ao lado de Kate Winslet e Dustin Hoffman. Uma coisa que me fascina é entrar na mente dos escritores, principalmente porque me agrada contar aos meus filho fábulas inventadas e narradas por mim, e que também falem da difícil realidade.
É mais fácil viver na França do que em Hollywood, de onde você saiu principalmente por causa da violência?
Sim, é muito mais fácil, mas continuo americano. Ainda que um crítico dos Estados Unidos de Bush e de uma educação e de uma sociedade que incitam a violência porque são baseadas no consumismo desenfreado e na busca do sucesso a qualquer preço. Quero que meus filhos cresçam numa pequena cidade onde possam ir à escola a pé e desarmados. Conservei minha casa em Hollywood, adoro aquele casarão muito gótico que pertenceu a Bela Lugosi (NR: famoso ator húngaro que imortalizou Drácula na versão de 1931) e onde coleciono centenas de lâmpadas ''liberty lalique''. Quando estou lá, acendo algumas e me iludo que vivo num tempo de paz e de esperança que desejo para meus dois filhos, filhos que mudaram minha vida.


