Por muitos anos, o cinema de Bernardo Bertolucci foi estigmatizado pela cobrança ideológica. Social e político sim, mas primordialmente e na essência, o verdadeiro Bertolucci é o cineasta em busca do prazer, o esteta imperador dos sentidos (''Ultimo Tango...'', ''La Luna'', ''O Céu que nos Protege'', ''Beleza Roubada'', ''Assédio''). É evidente que nada na obra deste homem afável e brilhante, nascido há 62 anos, em Parma, pode ser simplificado e compartimentado, sob o risco de injusta prática reducionista. Assim, quando se fala do imenso ato de amor a um só tempo sensorial, cinéfilo e ideológico que é ''The Dreamers'' (Os Sonhadores) apresentado em pré-estréia mundial há três semanas no Festival de Veneza , juventude, sexo, cinema e política são indissociáveis para o rescaldo daquele mítico ano-emblema, o 1968 que o diretor agora parece ter concluído. Pelo menos para aplacar sua nostalgia, sem remorsos ou arrependimentos.
Bertolucci pertence àquela geração que há 35 anos se dividiu entre os Cahiers du Cinema, a Cinemateca Francesa de Henri Langlois, as barricadas de Maio e a sexualidade. No passado, feroz contestador do Festival de Veneza, o cineasta compareceu este ano como hóspede de luxo e principal centro das atenções na hierarquia das atrações anunciadas, ''The Dreamers'' era o mais sedutor objeto do desejo. Por isso, sua agenda para os jornalistas foi de longe a mais requisitada.
Nos jardins do Hotel des Bains, cenário natural utilizado por Luchino Visconti em ''Morte em Veneza'', a reportagem da Folha esperou um bom tempo pela chegada de Bertolucci. Que afinal apareceu apoiado numa bengala, por conta de um problema na coluna que já vai se tornando crônico. Tão afável quanto brilhante, de fala melodiosa e respostas refletidas com instantâneo rigor, ele não mediu o tempo. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida com exclusividade.
Por que um filme sobre 1968?
''The Dreamers'' é um filme muito mais ambientada em 68 do que um filme ''sobre'' 68. Foi um período complexo, porque nas barricadas de Maio estava também a garotada burguesa, os filhinhos de papai, os intelectuais que bebiam vinhos caros. É um filme que me pertence tão intimamente, tão profundamente, que estou surpreso de não estar aqui conversando de pijama ou em robe de chambre. Aqueles foram anos que vivi com grande intensidade, discutindo ferozmente com meus amigos Godard e Bellochio, porque eles eram maoístas e eu não. Eram anos de grande vitalidade. Hoje a política expurgou a ideologia, tornou-se instrumento dos tecnocratas, sem paixão.
O senhor não esconde a nostalgia dos anos 60. E pelo que se nota, parece que não parou de sonhar.
Como esquecer os anos 60, os de minha juventude, entre 20 e 30 anos? Um período que ninguém esquece, eu ainda um principiante. Um período em que nos perguntávamos com frequência: ''o que é o cinema?'' Um pensamento recorrente que nos unia a todos, primos da Nouvelle Vague, Bellochio, seu compatriota, Glauber Rocha, e tantos outros. Dividíamos o mesmo entusiasmo e a mesma curiosidade pela natureza do cinema. Na metade dos anos 60, nossas idéias se fundiram com o sentimento político. O cinema tinha se tornado um instrumento político, eram os anos da prioridade política.
Como o senhor definiria ''The Dreamers''?
É uma viagem na máquina do tempo, com três jovens a bordo, uma espécie de flash-back fisiológico, não puramente imaginário, onde os três atores se tornaram contemporâneos do trio de protagonistas de ''The Dreamers''. Não quis fazer uma crônica jornalística porque estou convencido que não é possível fazê-la bem, nem mesmo usando o melhor material documental. Preferi mostrar a paisagem de um sentimento. Nesta história de iniciação ao sexo, em que três jovens estão trancados num apartamento enquanto Paris é incendiada pelos protestos de Maio, encontrei o justo curto-circuito entre privado e público, entre a revolução sexual e a política. Uma combustão perfeita.
Também é a narrativa sobre o crescimento daquelas pessoas, não ?
Também. Naqueles poucos dias, sozinhos no apartamento, os dois rapazes e a garota vão mudar muito. Porque tudo se misturava e parecia novo: a cinefilia quase compulsiva, a paixão pelo rock, o antagonismo com os pais, o erotismo, a revolta pelo caminho, o desejo de transgressão. Essas coisas que mudaram o mundo naqueles anos. Dormiam com a certeza de que na manhã seguinte o mundo estaria mudado porque o futuro tinha chegado. É por isso, voltando à sua primeira pergunta, que decidi fazer o filme para falar daquela idéia de poder transformar o mundo, sensação que os jovens de hoje não conhecem. Não têm um sonho comum e por isso não podem transgredir. A geração que fez 68 omitiu ou não contou direito aos filhos o que aconteceu, muito pela vergonha de se achar derrotada. Isto é um engano, as relações que existem hoje entre as pessoas são fruto do que aconteceu naquele momento.
O filme termina com Edith Piaf cantando ''Je ne Regrette Rien'' (NR: ''Não me Arrependo de Nada''). O sr. também não se arrepende de nada?
De nada, absolutamente nada daquele momento. Não me arrependo da escolha de jogar um coquetel molotov ou da escolha da alternativa do pacifismo. Foram os dois sopros vitais do movimento de 68, e ambos estiveram comigo. O terrorismo veio depois. E então com a morte de Aldo Moro tudo terminou. Seja como for, não compreendo porque hoje uma palavra como nostalgia tornou-se um palavrão, se ela é a substância de muita literatura e de muito cinema de ótima qualidade, é também uma coisa íntima, pessoal, bela. E há uma outra palavra que atualmente é tabu.
E qual é?
Ideologia. Volto a repetir: lamentável quando a política é separada da ideologia para se tornar simples ato administrativo, e por isso não me apaixona mais. Os ideais continuam a ser o sal da vida.
Assistindo ao ''The Dreamers'' não se pode deixar de pensar em ''Último Tango''. Até onde vão as semelhanças?
É Paris. E há o sexo. Mas as semelhanças param por aqui. Não, espere, há um terceiro elemento, estranho aos dois filmes, mas que os aproxima. ''Último Tango'' foi o último filme distribuído nos Estados Unidos com a censura ''X'' de proibido, uma interdição que depois foi abolida. E agora com ''The Dreamers'' tenho novamente problemas. Me comprometi com a Fox em fazer um filme que levasse um ''R'', isto é, que os jovens pudessem vê-lo com os pais. Mas o classificaram como vetado para menores de 17 anos. Deverei cortar uma ou outra sequência, mas serei eu a fazê-lo.
É a genitália masculina em primeiro plano que perturba os americanos?
Não apenas. Também a cena do rapaz que se masturba diante do poster de Marlene Dietrich na presença da irmã e do amigo deverá ser mais curta. E será de fato. Mas faço questão que os americanos saibam que não verão o filme como realizei na íntegra.
Após cada filme, o senhor parece virar uma página diferente. ''O Conformista'', filme histórico-político; ''Último Tango'', drama intimista; ''1900'', afresco histórico, social e político sobre 50 anos de história; ''La Luna'', de novo o drama intimista com dois personagens, e assim por diante, alternando: ''Tragédia de Um Homem Ridículo'', ''O Último Imperador'', ''O Céu que nos Protege'', ''Pequeno Buda'', ''Beleza Roubada'', ''Assédio''...
Digamos que é uma espécie de disciplina. Tenho sempre pavor de me achar idêntico a mim mesmo. Assim, cada vez que termino um filme de fato viro uma página. Tenho enorme necessidade de me renovar. Sempre pretendi ousar e assumir riscos, é estimulante e me dá uma energia extraordinária. Meu próximo filme, por exemplo, se chamará ''Inferno e Paradiso''. Vou rodá-lo em Nápoles a partir do ano que vem. É a história de Gesualdo de Venosa, um músico-profeta que Stravinski definiu como um precursor do século 19. Alguém que se aproximou muito da música contemporânea, de hoje, com alguns séculos de antecipação.

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