14 anos e meio. Filha de Mohsen Makhmalbaf, um dos grandes do cinema iraniano e mundial (entrevistado há dois anos pela Folha2 em Cannes quando o festival apresentou ''Kandahar''), e irmã de Samira Makhmalbaf, 23 (''A Maçã'', ''O Quadro Negro''), outra precocidade made in Irã e que teve o cetro de queridinha da intelectualidade festivaleira ameaçado no recente Festival de Veneza. E para quem? Justamente para a mana menor, para a caçulinha da família de cinema a mãe e o irmão também são ativistas por trás das câmeras.
Hana Makhmalbaf. Começou com a pintura (aquarelas), escreveu e publicou em inglês e francês um livro de poemas, chegou ao cinema. Já tem uma carreira , mas aqui não cabe a expressão ''ao longo do tempo'. Que tempo? Aos 7 anos, como tinha feito com Samira, papai Mohsen tirou Hana da escola regular e foi ele mesmo seu professor na Makhmalbaf House, uma espécie de laboratório em Teerã onde se aprende de tudo um pouco em cinema e onde os filmes da família são produzidos.
Hana esteve em Veneza por conta de sua estréia no longa-metragem, ela que já assinou um curta em 1997, portanto com 8 anos. O filme agora é ''Lezate Divanegi'' (''The Joy of Madness'', ou ''A Alegria da Loucura''), documentário sobre os preparativos que sua irmã Samira fez para o longa ''At 5 O'Clock in the Afternoon'', Prêmio Especial do Júri este ano em Cannes. Empunhando a câmera todo o tempo, Hana foi a Kabul ajudar a irmã a entrevistar e selecionar pessoas que poderiam ou não participar da história como atores. É o backstage, uma espécie de pré making off, o retrato sem nenhum retoque de gente que escapou das guerras com vida, mas não escapa da miséria, da fome, do medo sempre presente numa cidade arrasada antes pelo regime comunista, em seguida pelo Talibã. Não é necessário, mas ajuda conhecer previamente o filme de Samira. As coisas se encaixam melhor, se arredondam, é possível saber exatamente a origem daquela gente pessoas.
Preferindo responder em farsi (um dos idiomadas falados no Irã) e ajudada pelo irmão tradutor (e fotógrafo de cena), Hana já não é uma garotinha, mas ainda é pouco mais que uma menina, em constante e sorridente esforço para vencer a timidez. Não é linda, mas os imensos olhos negros cativam num rosto de expressão infantil. Está sempre com a cabeça emoldurada pelo chador da cor dos olhos, e isso parece acentuar a modéstia espontânea.
No momento em que nos despedimos, ela estende um exemplar da edição de seu livro de poemas, ''Visa Pour un Instant/Visa for a Moment''. É comovente seu jeito de quem indaga ''será que ele vai aceitar?'' Nenhuma afetação, nada que indique contaminação pela fama súbita, nenhum sinal de já ganhei, total ausência de malícia. Peço a dedicatória, ela escreve e desenha seu nome. E se pareço agradecido, ela parece muito mais. Coisa de criança.
A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida com exclusividade no terraço do Hotel Excelsior, no Lido de Veneza.
É claro que viver numa família como a sua tem tudo a ver com a decisão de fazer cinema. Mas seria apenas por causa dessa influência, digamos, quase congênita?''
Não, não é só por isso. Com o cinema transmito a minha visão das coisas do mundo, mas ele serve também para que eu resolva pequenos problemas do meu dia-a-dia.
Pintura, poesia, cinema. Houve bonecas, antes, em algum momento?
Tenho amigas de infância com quem me encontro algumas vezes, quando nos reunimos para brincar. Mas quando comecei a frequentar os cursos de cinema da escola de meu pai era uma espécie de brincadera, depois o cinema foi ficando sério na minha vida.
O que representou para você fazer este filme, na verdade um backstage para o de sua irmã ?
Em primeiro lugar, acho que é muito bonito e importante mostrar às pessoas aquilo que você está vendo. No caso de ''The Joy of Madness'', eu deveria apenas rodar o backstage para Samira. Mas quando cheguei ao Afeganistão não pude deixar de mostrar aquilo que estava vendo.
E o que era exatamente?
Uma realidade duríssima. No início não entendia direito, achava que dentro das burkhas (NR: o traje feminino tradicional das mulheres afegãs, que cobre todo o corpo) não havia ninguém. Mas encontrei histórias incríveis, como a da garota que ficou seis anos reclusa em casa, mas aprendeu inglês. Havia uma outra coisa que chocava: todos tinham medo. De minha irmã, de mim, da volta do Talibã.
Há alguma diferença entre a sua vida e a de outras garotas de Teerã?
Sim, para elas o problema é de se liberar não apenas do véu, mas dos limites e das proibições a que estão presas há anos. Em Teerã, minha vida é como a de tantas garotas européias, com os mesmos problemas, estudar, pensar no futuro, se divertir. Tive uma infância mais feliz que a de muitas outras, frequentando a escola de meu pai, sem nenhum problema de disciplina. Como mulher não tenho a mesma liberdade dos homens, mas acho que isto também ocorre em muitos países do mundo.
E sobre o cinema de outros países, você tem curiosidade em conhecer outros estilos, outras culturas cinematográficas?
Tenho curiosidade, mas não acho que posso me influenciar com qualquer coisa de um cinema que não conheço. Meu pai já me ensinou tudo que preciso saber.
E a censura no Irã, como está?
É praticamente a mesma de sempre, o que vem mudando são os critérios. Mas a censura permanece.
Por falar em censura: é verdade que você não está podendo assistir aos filmes deste Festival de Veneza por ser menor de 18 anos?
Sim, mas agora já foi resolvido. Recebi uma autorização especial da direção do festival. Mas isto não faz muita diferença porque, como já disse, não vejo nunca filmes de outros países.

Hana afirma que alguns aspectos de sua vida a diferenciam de outras garotas de seu país: ‘‘Para elas o problema é se liberar não apenas do véu, mas dos limites e das proibições a que estão presas há anos’’

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