EXCLUSIVA - Um cineasta e duas paixões
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de junho de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Foi a terceira entrevista que fiz com o diretor Emir Kusturica (com o tempo você não esquece a pronúncia correta: kusturitza), um sanguíneo cineasta dos Bálcãs, dono de curta mas fulgurante carreira como diretor - ganhou duas vezes a Palma de Ouro em Cannes, privilégio de raros. A primeira conversa foi no Festival de Cannes, em 2004, ano do filme ''A Vida é Um Milagre'', exibido em Londrina em 2006 e agora lançado em DVD. A segunda vez foi no Festival de Veneza, em 2005, ano de ''Crianças Invisíveis'', também visto em Londrina. Um dos curtas metragens que compõem este longa dedicado à infância desvalida ao redor do mundo é dirigido por Kusturica, e como em vários outros títulos dele, o futebol tem carinhosa e alegre presença.
A entrevista veneziana, que a princípio girou em torno do segmento dele, acabou em futebol. E por pouco não envereda pelo samba, já que o cineasta também é musico e comanda a No Smoking Band, adorável e anárquico grupo de musica étnica da ex-Iugoslávia. Quando perguntado sobre seu próximo projeto, afirmou que já estava com tudo pronto para iniciar um documentário sobre Maradona, para ele o maior jogador de todos os tempos. Diante da revelação, obviamente perguntei se ele já tinha ouvido falar de Pelé...
Sem perder absolutamente o bom humor que é marca registrada em todos os seus filmes, Kusturica respondeu que a documentação iconográfica - ele se referia especificamente ao banco de imagens, referencia obrigatória da pós modernidade - sobre Pelé não tinha sido suficiente para sensibilizar as novas gerações. E que Maradona, ''la mano de Diós'', veio ocupar este espaço de divindade dos gramados também como personalidade polêmica, coisa que Pelé nunca foi. Bem, não chegamos a discutir, mas prometi a ele, tão logo voltasse ao Brasil, que enviaria uma cópia em DVD do documentário ''Pelé Eterno'', de Aníbal Massaíni Netto. Que ele recebeu e agradeceu por e-mail, mas sem polemizar.
Antes de iniciar a terceira e mais recente entrevista, realizada no Hotel Majestic de Cannes há três semanas, recordamos aquele último encontro, mas o foco mesmo foi o documentário ''Maradona by Kusturica'', co-produção franco-espanhola apresentada como concorridíssimo evento fora de competição. Além de ser o encontro entre dois egos de dimensões avantajadas, o filme é uma caótica e energética mistura de muitos gols, imagens de arquivo, home movies, clips musicais, entrevistas com confissões duras e sequências de animação (algumas até violentas) que oscilam entre o caricatural hilário e o patético - os alvos preferenciais são ingleses institucionais: Margareth Thatcher, a Rainha Elizabeth e o Príncipe Charles, Tony Blair e mais Reagan e Bush, ao som de ''God Save the Queen'' pelos Sex Pistols.
Como surgiu a idéia deste documentário ?
Antes de mais nada tenho que dizer que, por muito tempo, pensei que este filme jamais veria a luz do dia. Fiz a mim mesmo uma série de questões, perguntei a mim mesmo quando encontrei Maradona pela primeira vez se seríamos capazes de trabalhar juntos, de fazer um filme. Ele atravessava um período muito difícil de sua vida. Ele é um homem muito sensível, mas é também alguém muito nervoso. Ele se drogou muito nos últimos tempos, e achei que ele não fosse capaz de contar a história toda, especialmente o lado mais sombrio. Assim, fomos caminhando passo a passo, o que acabou fazendo a realização durar dois anos e meio. Mas mesmo durante este período a estrutura não era muito clara.
Por que ?
Eu quis fazer um filme sobre jogadores de futebol, e via de regra jogadores de futebol não têm necessariamente a profundidade intelectual e pessoal que Maradona têm.
Até que ponto ele é uma pessoa complexa ?
Eu queria me encontrar cara a cara com um homem que tivesse uma forte visão política. Nós compartilhamos esta característica, estamos ambos tentando questionar o sistema político que nos rodeia. Nós nos questionamos sobre a política de George W. Bush, sobre a questão do tratado NAFTA, sobre líderes da América Latina como Hugo Chavez e Lula. Mas nenhum dos dois é membro de qualquer partido, e nossas diferenças não são importantes.
Como o sr. descobriu estas afinidades ?
Tive a intuição de que ele era assim quando fiz dois concertos com a No Smoking Band em Buenos Aires e o vi na tevê. De certa maneira me pareceu às vezes um político, às vezes uma espécie de Falstaff fanfarrão e boêmio, um clown interpretando para o público. Há uma espécie de feitiço em sua personalidade.
O que o sr. mais admira em Maradona ?
Sua aura. Mesmo quando está fazendo o que há de pior, ele é capaz de aumentar sua popularidade. Neste sentido ele é uma espécie de Elvis Presley: quando está psicologicamente arrasado ele ainda aparece grande diante do povo. Creio que é este aspecto de sobrevivência a todo custo que é tão atraente à opinião pública.
O sr. se considera uma espécie de Maradona do cinema, como aparece no filme ?
Não sou eu quem diz isto no documentário, mas a apresentadora do talk-show televisivo em que eu apareço como convidado. De qualquer maneira, como eu poderia pretender me comparar com o deus do futebol ?


