Excentricidades musicais
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Ana Katia<br> Agência Estado 
''Alice no País das Maravilhas'' chegou às telas acompanhado de duas trilhas sonoras. ''Almost Alice'', oficial, mas paralela, escala artistas do pop rock em faixas inspiradas nos personagens de Lewis Carroll. Já ''Alice In Wonderland: Soundtrack'' é assinada por Danny Elfman, que está para a música dos filmes de Tim Burton como Johnny Depp e Helena Bonham Carter estão para o elenco. Elfman é quem maquina em forma de canções as excentricidades de Burton. São dele, para citar só algumas, as composições de ''Estranho Mundo de Jack'', ''Batman'', ''Edward Mãos de Tesoura'' e ''A Noiva Cadáver''.
A trilha original, criada para o filme, abre com ''Alice's Theme''. Orquestrada, com vocal feminino, a faixa percorre toda a narrativa, com letra que remete ao enredo - o retorno da adulta Alice ao País das Maravilhas, ou, como é dito no filme, ao ''Underland''. Usando ecos desse tema principal, Elfman constrói os climas da história em outras 23 faixas, indo da canção de contos de fadas para Alice criança à tensão de batidas primitivas nos enfrentamentos da experiência subterrânea. E vai costurando a fábula dark com coros fantasmagóricos para intensificar ações, diminuir a tensão e capturar as crises de Alice e companhia. Aos 19 anos, a personagem não é mais a mesma, talvez nem Tim Burton seja mais o mesmo, mas a trilha de Elfman é uma das maiores qualidades dessa megaprodução.
Quando sobem os créditos, porém, o que se ouve é o som da canadense Avril Lavigne cantando a faixa hit ''Alice (Underground)'', que abre o disco ''Almost Alice''. Avril é pra lá de eficiente em seu pop rock rebelde, cantado do ponto de vista da personagem, em primeira pessoa. O problema, de sempre, é que Avril grita demais.
Comercialmente, ''Almost Alice'' é uma ótima idéia, mas na prática, além de uma total falta de conexão entre suas 16 faixas, sobram poses e gemidos e falta escuridão. A produção dos escoceses Franz Ferdinand,''The Lobster Quadrille'', é o momento quase único em que o álbum alcança as sombras características de Tim Burton, com o detalhe de que a letra foi escrita por Lewis Carroll.
A banda praticamente salva o CD, que não é de todo ruim. Tirando desastres como o tatibitati radiofônico ''Follow Me Down'', do 3OH!3, há boas peças como ''Fell Down a Hole, de Wolfmother, ou ''The Poison'', do The All American Rejects. Outro destaque é ''White Rabbit'', canção de Jefferson Airplane revisitada por Grace Potter and the Nocturnals, cujo único senão é praticamente repetir musicalmente o que a banda pioneira do psicodelismo já havia mostrado em 1967 na gravação original.


