Excelência literária argentina
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Daniel Benevides<BR> Folhapress 
Há mais psicanalistas e escritores na Argentina do que na maioria dos países. O fenômeno poderia ser explicado de forma jocosa e aparentemente contraditória: o complexo de não ser europeu, por um lado, e o orgulho de ser argentino, por outro. Mas qualquer menção desabonadora cai por terra diante da literatura de nossos vizinhos.
É uma literatura excelente, inspiradora. Um ótimo exemplo é essa coletânea organizada por Luis Gusmán, ele mesmo grande escritor, autor de ''Villa'', clássico moderno da prosa política.
São 27 autores e 27 contos. Todos de alto nível. O que os aproxima é o fato de serem quase todos desconhecidos no Brasil (algo que poderia ser explicado também de forma jocosa, mas deixemos para lá), ou de serem ''jovens'', abaixo dos 60, com exceções.
O prefácio de Gusmán e informações ao final dão conta de apresentá-los formalmente. Mas é no estilo peculiar que se revelam. Tome-se, por exemplo, o conto ''Cinismo'', de Sergio Bizzio. É o que se poderia chamar de prosa cortante, inclemente, sem meias-palavras. Foge do óbvio pelo tema. No caso, a iniciação sexual de um adolescente com uma garota hermafrodita de 12 anos. O conto virou o filme premiado em Cannes ''XXY'' (2007), nas mãos de Lucía Puenzo.
Alan Pauls vai mais longe. Além do estilo próprio, ele faz o papel do provocador, em seu conto ''Interminável - Um Diário Íntimo'': ''Odeio a tradição do conto argentino. Essa perícia mecânica, esse acabamento, essa perfeição de joalheria, essa pureza, esses arremates engenhosos...'' Quem o diz é Rímini, o tradutor vivido por Gael García Bernal na adaptação de Hector Babenco de ''O Passado'' (2007), livro que tornou o escritor conhecido no país.
Muitos dos autores de ''Os Outros'' parecem não angustiados com a influência, na acepção conhecida de Harold Bloom, mas fartos dela. Borges, Bioy e Cortázar seriam modelos a se afastar, não a superar. Claro, é possível notar algo de borgiano na prosa poética e singular de Luis O. Tedesco, ou algo de Cortázar nos jogos semânticos e visuais de Luis Chitarroni. Mas talvez sejam apenas vislumbres automáticos.
Mesmo Ricardo Zelarrayán, nascido ''em meados dos anos 20'', é uma figura algo marginal, ''cult''. Seu conto ''Pele de Cavalo'' mostra o quanto é original sem com isso perder aquela emoção indefinível, misteriosa que permeia os grandes textos.
O mesmo se pode dizer de María Moreno, com seu evocativo ''Tenha Dó (Praça Miserere)'', ou ''Uma Pequena Luz'', no qual Florencia Abbate lamenta: ''É triste que as palavras não sejam suficientemente diáfanas''.
Já ''O Cerco'', de Martín Kohan, e ''Vida de uma Bala'', de Juan Becerra, se utilizam da história argentina para criar uma ficção desconcertante, em que habilmente usam a sugestão para ''povoar'' os contos de elementos nunca mencionados. Que venham mais livros como este.
Serviço:
- Os Outros - Narrativa Argentina Contemporânea
Autor - Vários (org. de Luis Gusmán)
Editora - Iluminuras
Quanto - R$ 44 (288 págs.)


