O ex-sargento do Exército Amadeu Felipe da Luz Ferreira, que comandou a resistência em Caparaó, disse que o movimento não nasceu por acaso. Ele era reflexo da indignação dos sargentos do Exército, Aeronáutica e Marinha que não admitiam o golpe militar - feito com o apoio da elite brasileira. ''Nós começamos a nos mobilizar antes mesmo do golpe. Mas foi em 1964 que nos reunimos mais fortemente.
Em 1964, travou a evolução da história econômica do Brasil. As reformas de base ficaram paradas. Fomos presos, nos foi cerceado o direito a atividade política. Tentamos derrubar a ditadura por todos os meios possíveis e a resistência em Caparaó foi o ápice do nosso movimento'', contou Amadeu Felipe, em entrevista à Folha2.
A resistência tinha ligação internacional. ''Tínhamos contatos no Uruguai, na Argentina e na Bolívia. A luta era em comum. Queríamos a emancipação da América Latina - que passava por um período de ditadura'', disse o ex-sargento. Amadeu, que hoje tem 72 anos, relata que os quartéis reproduziam a luta de classes no Brasil.
De um lado, os sargentos, que pensavam política e ideologicamente como o povo. De outro os oficiais, que queriam manter a ditadura e a dominação. ''Acho que a construção da democracia no Brasil surgiu de todos os movimentos que ocorreram: nosso, dos jovens que deram a vida pelo fim da ditadura militar. Amigos meus foram assassinados vilmente pela ditadura. A violência militar é que apressou sua queda'', analisou.
Amadeu Felipe passou cinco anos preso no Rio de Janeiro. O refúgio dele foi Londrina. Hoje ele tem três filhos e dez netos. ''Tento mostrar a eles o que ocorreu. Naquela época a gente mastigava ferro pelo Brasil. Acho que ainda existe muito para fazer no sentido de democratizar nosso País. Mas estamos no caminho'', previu.(L.P.)

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