Evoé! Londrina merece um Teatro Municipal
Defendo a ideia de Londrina ter um Teatro Municipal que remeta à condição de "pertencimento cultural" da cidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de julho de 2026
Defendo a ideia de Londrina ter um Teatro Municipal que remeta à condição de "pertencimento cultural" da cidade

Dar nome às coisas é dar um significado especial a elas. Mais que isso, dar nome às coisas significa criar informações sobre elas. Você diz: "vou ao cinema" e todo mundo sabe que você vai a uma sala de projeção para ver filmes. A palavra "cinema" elimina explicações.
A mesma coisa quando se diz "vou ao teatro", isso remete imediatamente a um espaço onde as pessoas assistem a espetáculos. Dar nome às coisas compreende dar a elas uma síntese, um "selo mental" que cria identidade.
Digo isso para defender, mais uma vez, a ideia de Londrina ter um Teatro Municipal que remeta a uma condição de "identidade cultural" de Londrina, porque no DNA de Londrina está o teatro.
Pensei sobre isso há poucos dias, ao ler matéria, aqui mesmo na FOLHA, sobre a ideia da comissão que estuda a conclusão do Teatro Municipal de transformar o espaço em Centro Cultural de Londrina. Nada contra a diversificação do espaço se isso o viabiliza. Se querem criar também um Museu de Inteligência Artificial que se crie o Museu, mas sem diluir o nome Teatro Municipal como Centro Cultural de Londrina, sem muita identidade.
Centros culturais existem aos montes em colégios, em escolas de ensino médio, em agremiações sociais que tem um salinha destinada às artes ou em cidades que já têm um Teatro Municipal consolidado, como São Paulo.
Nomear um teatro público como Teatro Municipal é contemplar sua identidade, considerando sua importância num nível simbólico de pertencimento cultural a uma arte que, repito, está no DNA da cidade.
Ao assistir por 17 dias à 58ª edição ao FILO - Festival Internacional de Londrina - com pequenos teatros lotados, incluindo-se aí a elegância do Ouro Verde, pensei sobre a importância do teatro em Londrina e no significado da cidade ter um Teatro Municipal, uma grande sala de espetáculos que não pode ser chamada de outra coisa .
As pessoas que se preocupam verdadeiramente com a Cultura não podem deixar de refletir sobre dois nomes: Teatro Municipal ou Centro Cultural de Londrina para perceberem a força da palavra Teatro em detrimento da palavra Centro.
Se sob o ponto de vista político desdobrar a finalidade de um espaço sonhado pela comunidade artística é uma forma de viabilizar recursos, que se faça o Museu de Inteligência Artificial. Tudo é bem-vindo. Mas substituir o nome Teatro Municipal por Centro Cultural é enfraquecer o sentido simbólico de um espaço que a cidade merece. Que se batizem os dois locais com seus nomes próprios: Teatro e Museu, no mesmo espaço, com finalidades diferentes.
Há mais de duas décadas, a comunidade cultural sonha e luta não apenas por um espaço público que se chame Teatro Municipal, mas por um espaço que tem nome e sobrenome: Teatro Municipal Nitis Jacon, em homenagem àquela que ajudou a transformar Londrina num dos maiores palcos da América Latina, construindo uma identidade cultural que não pode se perder num desvio de finalidades. Que se diversifique o espaço a ser criado, mas que não se perca o que já foi construído. E não estamos falando da construção material, de concreto e vidro, mas da construção simbólica que já pertence à cidade.
Dar nome às coisas significa criar informação e consagrar sua finalidade histórica. É dizer que Londrina merece um Teatro Municipal porque a cidade já construiu um público imenso para o teatro e daqui saíram companhias que hoje são reconhecidas em nível nacional. Que o digam as 32 mil pessoas que assistiram ao FILO este ano, lotando os teatros possíveis com a beleza dos públicos que aplaudem de pé a arte que faz vibrar o coração da cidade.
Só quem frequenta o teatro conhece essa vibração - os que não frequentam não sabem - e para dar nome às coisas é preciso conhecê-las de perto. Uma intimidade que não passa por decisões apressadas, mas por décadas de palcos, companhias e públicos que conhecem também o significado da palavra Evoé.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


