Angela Raizer Barbosa

Reprodução‘‘Tinha 20 anos e era uma das 12 modelos ao concurso da revista Estampa. Era a menos bonita de todas, mas tinha pernas longas e uma pele linda...’’A ex-primeira dama argentina Evita Duarte Perón, que morreu aos 33 anos de idade, no auge de sua trajetória política, provavelmente acreditava que teria uma segunda chance na terra. ‘‘Voltarei e serei milhões’’, frase a ela atribuída, ecoa como uma profecia àquela que ainda hoje é musa inspiradora de obras de teatro, musicais, filmes e livros. O último destes, ‘‘Evita - Imagens de uma Paixão’’, (Editora DBA-Melhoramentos, 207 páginas) é, basicamente, um relato biográfico feito pela jornalista e escritora Matilde Sánchez. Baseada em fontes documentais, a escritora contou com a ajuda de professores e pesquisadores da Universidade de Buenos Aires. O livro, como o próprio nome diz, prende-se sobretudo a imagens. Já o texto resume a trajetória de Evita - da infância à morte - através de fragmentos de discursos, reportagens de jornais e revistas e da autobiografia ‘‘A Razão de minha Vida’’. As poucas observações da escritora sobre a personalidade do mito baseiam-se em fatos.
Reconstruindo a mítica transformação da menina pobre, filha não reconhecida de Juan Duarte (o sobrenome do pai só foi anexado ao seu nome pouco antes do casamento com Perón), a autora se exime de qualquer julgamento político, até porque o tempo em que Evita reinou na Casa Rosada (1946/52), foi marcado pela intensa propaganda oficial. Tudo o que Evita dizia, fazia e vestia era divulgado (inclusive, só podiam ser publicadas as fotos que captavam o melhor ângulo da então primeira dama).
ReproduçãoEvita em ‘‘A Pródiga’’ seu primeiro papel como protagonista no cinema, 1945
Nem muito bonita nem feia, sem dúvida Evita tinha carisma e sabia usá-lo para agradar as massas proletárias, despertando o ódio das elites. E sua história realmente começou quando conheceu o coronel Juan Domingo Perón, em 1944: ‘‘Todos, ou quase todos, temos um dia maravilhoso na vida. Para mim, foi o dia em que minha vida coincidiu com a de Perón’’, disse ela em suas memórias. Até então, Evita era uma jovem tentando alcançar o estrelato através de capas de revistas, radionovelas, filmes e, de acordo com as más línguas, alguns amantes influentes.
Segundo a autora, Evita serviu de inspiração à cultura pop porque encarnou a entrada das mulheres na vida pública usando o seu magnetismo. A produção de sua imagem foi estratégica numa época em que a televisão ainda não era o veículo das massas. Mas sua imagem arrebatadora estava em todos os jornais e revistas da época. ‘‘... E o casal Perón introduziu o que os americanos chamavam de photo-op, oportunidade fotográfica que consistia em retratar o poder fora do seu âmbito natural. A imensa maioria das fotos de Evita são oficiais.....É praticamente impossível topar com uma Evita feia, esse ângulo foi censurado...’’
ReproduçãoIntimidade documentada: o cabeleireiro Julio Alcaraz, criador dos famosos coques, começou a pentear Evita em 1944
A partir de 1946 começa a ser montada a superprodução Evita, interpretada por ela mesma (as outras pertencem à ficção como a ópera rock de Tim Rice e Andrew Lloyd-Weber, e o filme com Madonna, sem citar as produções menores). Os primeiros anos de Evita no poder revelam uma verdadeira obsessão por sua aparência, calcada na idéia de sofisticação ao gosto hollywoodiano. Sem a classe e a cultura dos bem-nascidos, Evita procurava preencher essa lacuna vestido-se de acordo com a ocasião. Lenços camponeses sobre os cabelos soltos e vestidos estampados para visitar orfanatos, vestidos glamourosos, assinados por estilistas franceses, e jóias ofuscantes para as noites de gala ao lado das elites argentinas. Os trajes de Christian Dior, Marcel Rochas e Jacques Fath eram despachados da França, no maior sigilo, em avião oficial, mas o investimento valia à pena: os jornais diários dobravam a tiragem quando publicavam fotos dela vestindo modelos europeus.
ReproduçãoApoiada pela poderosa CGT, Evita conquistou a adesão fervorosa do proletariado
Para além do luxo e do poder, o livro revela ainda o sofrimento de Evita a partir de 1951, ano em que foi diagnosticado o câncer que a mataria em 1952. Idolatrada em vida, ela foi santificada pelo seu povo depois da morte. Tanto que seu cadáver embalsamado e insepulto foi assunto de Estado depois da queda de Perón, em 1955. Evita só alcançou a paz de um túmulo definitivo em l974, no cemitério da Recoleta, 18 anos depois de sua morte.

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