Eventos no Rio e em SP celebram a obra de Will Eisner; cartunista chega na sexta
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domingo, 03 de outubro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 04 (AE) - Há alguns anos, o cartunista americano Will Eisner foi convidado para ilustrar uma graphic novel sobre a vida do guitarrista Jimi Hendrix. Eisner abriu mão do convite com a seguinte justificativa: "Eu estou muito mais para Glenn Miller do que para Jimi Hendrix". De fato, o criador do "Spirit" é uma espécie de big band dos quadrinhos. Mas há também um dado curioso sobre ele: os brasileiros o conhecem melhor que seus compatriotas, os americanos. A prova é que, a partir da semana que vem, uma série de eventos celebra a obra de Eisner em São Paulo e Rio.
Na sexta-feira, a TV Senac promove a estréia do primeiro documentário sobre o autor, "Will Eisner - Profissão Cartunista", da produtora carioca Scriptorium, realizado por Marisa Furtado e Paulo Serran. Será no Centro de Comunicações e Artes do Senac (Rua Scipião, 67, Lapa). Na ocasião, também será aberta uma exposição cenográfica que mostra um daqueles becos de Nova York que Will Eisner retratou melhor que ninguém em seus livros. Além da cenografia, foram feitas 30 ampliações de seus primeiros trabalhos.
No Rio, no Museu do Telephone, de sexta-feira até o dia 31, haverá uma exposição sobre a obra de Eisner, com esboços, desenhos originais e ilustrações inéditas, além de litogravuras nunca publicadas no País, fotos e revistas. No dia 10, o cartunista estará lá autografando seu livro "O Último Cavaleiro Andante", que a Companhia das Letras está lançando - trata-se de uma adaptação de "D. Quixote", de Cervantes.
Até agora, Eisner só viu o piloto do programa da TV Senac. "Achei maravilhoso", diz o cartunista, empolgado. Ele não sabe nem a metade. "Acho que o homem vai cair para trás", diz a diretora Marisa Furtado. "Will Eisner - Profissão Cartunista", além dos depoimentos de Eisner gravados ao longo de dois anos, traz opiniões de gente como Jerry Robinson, Bill Sienkiewicz, Dennis Kitchen, Art Spiegelman e François Schuitten
entre outros.
Eisner fez sua carreira num nicho muito particular da "arte sequencial", como ele denominou seu estilo. Ignorou o universo dos super-heróis e criou histórias duras, secas, sempre inspiradas no mundo real que conheceu em Nova York, nos anos 50. "Para mim, super-heróis são personagens unidimensionais", diz o autor. "O principal subtexto de uma história, qualquer história, é a possibilidade da falha, da mortalidade, do erro", afirma.
Eisner é simplesmente o mais importante autor do gênero vivo. É tão importante quanto incompreendido em sua terra natal. "Os Estados Unidos ainda têm dificuldades em absorver a mídia dos quadrinhos", diz a americana Lucy Caswel, curadora da Ohio State Library. Lucy está imersa num trabalho hercúleo por esses dias: ela se ocupa de inventariar a obra de Eisner ao longo da carreira para uma seção inteiramente dedicada ao mestre na biblioteca.
Não chega a ser curioso que o mais importante documentário sobre a obra do artista seja brasileiro. Eisner gostou tanto do piloto do filme que deu autorização para a produtora Scriptorium vender a série em todo o mundo. Para realizar os três programas de "Will Eisner - Profissão Cartunista" (intitulados Spirit, O Sonho e Masterclass), os diretores Marisa Furtado e Paulo Serran gastaram dois anos e três meses de pesquisas no Brasil e nos Estados Unidos. Criaram até uma técnica especial, que chamam de animatoon, para dar vida a algumas histórias de Eisner.
Sem dinheiro para finalizar o material, procuraram algumas das mais importantes emissoras de televisão do País, recebendo recusas. Ninguém percebeu que estaria fazendo história. Até que a TV Senac abrigou o projeto. "Não há ninguém completo como Will Eisner", diz o roteirista inglês Alan Moore, autor dos clássicos "Watchmen" e "V. de Vingança". "Nunca houve e, em meus dias mais pessimistas, eu tenho dúvidas se um dia haverá", afirmou.


