A crise financeira enfrentada pela prefeitura de Londrina depois de inúmeros escândalos e suspeitas de desvio de recursos dos cofres públicos tem causado reflexos negativos em vários setores da cidade e já está atingindo em cheio a área cultural do município. O atraso no repasse das verbas do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) tem prejudicado diversos eventos programados para acontecer ainda neste ano.
O 10º Festival de Dança, que terminou ontem, por exemplo, sofreu redução de 70% em seu orçamento, e a 2 edição do Festival Nariz Vermelho e a 9º Festival do Teatro do Oprimido tiveram que ser adiados. A instalação de uma Vila Cultural na Zona Oeste ainda não saiu do papel e os organizadores do 2º Encontro de Contadores de Histórias, ocorrido em agosto, estão renegociando dívidas que já deveriam ter sido pagas.
''A gente já deveria estar pensando na programação do ano que vem. No entanto, ainda estamos preocupados com pagamentos atrasados que deveriam ter sido feitos'', reclama Cláudia Silva, coordenadora do Encontro. Ela diz que o projeto foi orçado em R$ 52.700, sendo que metade do valor foi depositada em agosto. ''Conforme o cronograma, a segunda parcela deveria ter sido paga em setembro, mas ainda não há data certa para que isso ocorra. O pessoal da Secretaria de Cultura tem se esforçado para colaborar conosco, mas o pagamento não depende deles e sim da Secretaria de Fazenda'', enfatiza.
Apesar do atraso, Cláudia diz estar esperançosa para que a situação se resolva. ''A gente fica chateado por ter que fazer pagamentos atrasados para nossos fornecedores, mas a vontade de dar andamento ao projeto é muito mais forte. Este ano, por exemplo, levamos a contação de histórias para mais de 30 espaços, entre escolas, bibliotecas e asilos, entre outros locais. Atingimos um público de mais de 3.600 pessoas e por isso não podemos desistir do propósito de promover a arte da palavra narrada'', argumenta.
As dificuldades enfrentadas por Cláudia e outros gestores culturais acabaram levando outros produtores a rever eventos programados, reduzir o número de atrações previstas ou reavaliar cronogramas. A organização do 10º Festival de Dança de Londrina, por exemplo, optou por oferecer uma programação reduzida. ''Tivemos que cancelar a contratação de várias companhias de outros Estados para poder manter o festival na data prevista. Além disso, cancelamos toda a programação didática do evento'', relata Danieli Pereira, organizadora do festival.
Ela relata que o Festival de Dança estava orçado em R$ 130 mil. ''Deste total, 60 mil foram pagos com patrocínio da Caixa Econômica Federal e R$ 70 mil seriam repassados pelo Promic. Como não há previsão de quando esse recurso seria liberado pela prefeitura, optamos por trabalhar apenas com os recursos da Caixa. Preferimos adiar para o ano que vem parte das atrações pois não tínhamos como pagar cachês, passagens, hospedagem e alimentação das pessoas de fora e ninguém quer trabalhar agora para receber daqui a cinco meses'', enfatiza Danieli.
O produtor cultural Alexandre Simioni enfatiza que a crise que afeta os projetos culturais causa prejuízos para toda a população. ''Criamos um projeto de instalação de uma vila cultural na zona oeste, nas imediações do Jardim Tóquio, onde não há nenhuma opção cultural para os moradores locais. Pretendemos oferecer diversos cursos de teatro, música e contação de histórias, além de oficinas e apresentações artísticas. O espaço, que vai se chamar Vila Cultural Triolé já deveria estar funcionando, mas não tivemos nem como alugar o imóvel porque só recebemos a primeira parcela dos R$ 25 mil previstos. O depósito aconteceu em agosto e não há previsão de quando será depositada a outra metade desse valor'', lamenta.

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