Evento se consolida graças à diversidade
Há um paradoxo que persegue os participantes do Festival Internacional de Londrina (Filo). De um lado, a importância de participar do festival mais antigo do País encorpa o currículo do grupo. De outro, companhias conceituadas enfrentam a falta de estrutura que resulta em uma produção escassa, consequência de um orçamento reduzido. O efeito é que ao mesmo tempo que o festival se consolida enquanto evento cultural, também retrocede em questões operacionais, conferindo um aspecto até amador a uma trajetória de mais de três décadas de duração.
Para trazer os 39 espetáculos, entre atrações nacionais e internacionais, além do Cabaré, programação musical do Filo; do Circuito Londrina, que apresentou atrações locais, e das oficinas ministradas durante o evento, o Filo contou com a minguada verba (para um festival desse porte, frisa-se) de R$ 1,4 milhões, pouco mais da metade do orçamento previsto. Para se ter uma idéia, a verba é a mesma praticada pelo Festival de Teatro de Curitiba (FTC), que não apresenta nem a metade do número de peças, nem a representatividade das atrações do Filo.
Realidade que certamente prejudica a realização do festival de Londrina, conforme admite a diretora geral do evento, Nitis Jacon. Reduzimos o número de espetáculos, o número de pessoas na produção e não temos como dar continuidade aos projetos de extensão, como as oficinas, revela, comentando que a preocupação com a qualidade dos espetáculos trazidos tenta suprir essa carência.
O ator Eduardo Moreira, do Grupo Galpão, observa que o festival atravessa um processo de mutação. O Filo está se transformando do vapor para o sólido, metaforiza. O grupo mineiro participou do Filo pela primeira vez em 1989, voltou este ano com o espetáculo Um Trem Chamado Desejo (direção de Chico Pelúcio). Uma apresentação sem ritmo, mas que marcou o público que lotou o Cine-Teatro Ouro Verde e não se cansou de aplaudir durante as cenas.
Esse envolvimento da platéia com os espetáculos é uma das características do já tradicional festival. O Filo está amadurecendo, opina Moreira. Se estabelece como segmento e ultrapassa a esfera de apenas mostrar os espetáculos.
A linha tênue que separa o mero evento do compromisso social com a cultura é ultrapassada principalmente com as oficinas. Foram ministradas 14, dentro dos Projetos de Maio, programação do festival que tem o objetivo de aproximar o teatro da comunidade. O ator e diretor Luís Carlos Vasconcelos (do filme Eu Tu Eles) ministrou a Oficina de Palhaços e ainda aproveitou o festival para lançar o projeto Risos da Terra, primeiro encontro internacional de palhaços com agenda marcada para o final do ano, em João Pessoa (PB).
Para Vasconcelos, essa possibilidade de trocar experiências confere ao Filo uma grande importância no cenário nacional. Observa que as oficinas funcionam também como uma reciclagem, tanto para quem coordena como para quem participa. Para o ator e diretor, que ganhou reconhecimento com a direção do espetáculo Vau da Sarapalha, um diferencial do Filo para os inúmeros festivais nacionais e internacionais que participou é justamente essa diversidade de atrações que não se limita à apresentação dos espetáculos. Existe uma preocupação em deixar algo na cidade. Vasconcelos destaca também a ausência do caráter competitivo do festival.
O Filo foi criado em 1968 como um festival de grupos universitários locais. Tinha um caráter revolucionário que se perdeu no tempo e na história, mas que sem dúvida reflete o fazer teatral dessas últimas décadas. O cenário cultural brasileiro deixou, em tese, de ser subversivo para ser estético e ter uma preocupação demasiada com a forma, com a fórmula. Mas o festival apresenta o que está sendo realizado no País e também nos mais recôndidos cantos do mundo.
Dá oportunidade, por exemplo, de mostrar a operários e estudantes universitários, o teatro de imagem da Polônia, como em Femina, que lotou o pátio de uma escola nos seus dois dias de apresentação. Do espetáculo provocativo e musical Una de Cal Y Una de Arena, de Porto Rico, até a genialidade simplista dos franceses em BP Zoom, do Nouveau Cirque. Uma verdadeira miscelânea teatral, que apesar de não ter o impacto das décadas de 80 e 90, ainda interessa e seduz.





