Evento põe em debate os conceitos de obra de arte e design
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de outubro de 2002
Luiz Claudio Oliveira<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A apropriação que as obras de arte vêm fazendo de objetos industriais e, por outro lado, o espaço que o design vem ocupando dentro das artes plásticas vão ser debatidos hoje dentro da programação do Curitiba Arte Design. O debate terá como tema ''O Design e a Obra de Arte'' e reunirá designers, arquitetos, artistas plásticos e professores, a partir das 19h30, no Teatro Paiol, em Curitiba.
As duas questões se confundem no passar do tempo, na mesma medida que arte e design também estão sendo confundidos. Na virada do século 19 para o 20, o artista Marcel Duchamp utilizou objetos industriais para questionar a arte e a sociedade industrial, além de si próprio. Ao mesmo tempo, na Alemanha, surgia a Bauhaus, escola que unia valores da arquitetura e das artes, mas sempre pregando a funcionalidade. Depois veio a arte pop e as obras seriadas de Andy Warhol. Agora, parece que os designers estão dando o troco e avançando sobre a arte, inclusive dentro dos museus, numa apropriação de espaço.
''A arte hoje é mais um conceito que um objeto e por isso o design está ocupando o espaço'', afirma o designer Alvaro Guillermo, que é mestre de arte e cultura e autor do recém lançado livro ''Design, do virtual ao digital'', em que dedica um capítulo a essa discussão.
''A arte está conceitual por causa dos curadores e não por causa dos artistas'', rebate a artista plástica e professora da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Jussara Age. Para ela a distinção entre arte e design deve ser mantida apesar de as duas poderem ter ''olhares parecidos''. ''O design, por melhor que seja, não tem a aura da obra de arte não tem o diálogo que a arte permite'', afirma.
Os dois estarão participando do debate de hoje à noite. Com eles também estarão o professor Fernando Bini, doutor em Estética pela Universidade de Paris; Gisele Schwartsburd, designer responsável pela reedição do mobiliário de Sérgio Rodrigues; Orlando Busarello, arquiteto e paisagista; Salvador Gnoato, arquiteto e professor da PUC/PR; e Sérgio Pires, arquiteto, designer e artista plástico.
Sérgio Pires, por seu trabalho em criação de jóias, recebeu recentemente convite para participar do Designer Fórum Anglogold 2002. Para ele não há distinção entre a criação, a não ser em casos específicos. Tanto que defende que os museus abram espaço também para o design e para as novas mídias. ''Este Novo Museu que está para ser inaugurado em Curitiba tem que abrir espaço para novas linguagens, outras formas, ter um estilo como o do MoMa, de Nova York, que faz, constantemente, exposições de design'', afirma.
O Novo Museu, que deve ser inaugurado em novembro, em Curitiba, nem abriu ainda e já promete ser um dos eixos polêmicos do debate. A artista plástica Jussara Age reclama que os artistas locais não foram convidados sequer a dar palpites sobre o novo espaço, um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. ''É um museu que não dá espaço para os artistas locais e que nasce sem acervo'', acusa.
Esta visão é contestada pelo arquiteto Salvador Gnoatto para quem o Novo Museu provocará uma transformação na cidade. ''É uma grande obra e eu sou totalmente a favor. Quando se vai ao Guggenheim, em Bilbao, não é para ver exposição de artistas locais, mas grandes exposições das artes no mundo'', afirma.
A designer Gisele Schwartsburd prefere fugir deste debate que considera político, apenas afirma que o Centro Cívico estava ficando decadente e o Novo Museu pode reanimar aquele espaço. A respeito do design ser ou não ser obra de arte, ela afirma que é a criação que distingue a humanidade dos animais. ''O poder de criação é que faz o homem se assemelhar a um deus, a um criador. Cada vez que você cria, você é um pouco Deus, não interessa o que esteja criando, pode ser uma fórmula matemática, uma nova forma de relacionamento na sua vida pessoal ou qualquer outra coisa.''
Ela conclui que o design pode ser considerado obra de arte quando transcende a própria função e rompe a barreira da temporalidade. Também lembra que o pós-modernismo já deveria ter acabado com esta discussão quando determinou que arte é aquilo que a gente entende como arte. E assim, arte e design vão se interpenetrando. É como a história do casal que está sempre brigando, mas que não consegue viver separado pois, afinal, os dois se amam.


