São Paulo, 09 (AE) - Celebra-se este ano o centenário do nascimento do escritor argentino Jorge Luis Borges. Ele criou uma das grandes obras literárias do século, mas sua personalidade controvertida o impediu de conquistar o Prêmio Nobel. Borges era considerado reacionário, mais do que alienado. Pior para o Nobel, que destacou muitos escritores menores do que ele. Primeiro nos ensaios, depois nas ficções, Borges gostava de dizer que o tempo não existe. É uma convenção e só o momento fugidio - e irrecuperável - pode ser capturado. Isto terminou por aproximá-lo do cinema.
Borges amava o cinema. Adolfo Bioy Casares dizia que falavam muito sobre filmes. O evento "Labirintos de Borges", que começa amanhã no Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141, em São Paulo, tel. (011) 5080-3000, vai mostrar a criação borgiana interpretada em música, teatro e dança, exibida em filmes e debatida em ciclos. A exposição-instalação "Labirintos de Borges" será inaugurada amanhã para convidados. Na sexta-feira, começam os filmes e vídeos. Falta o que talvez seja o melhor filme adaptado de Borges: "A Estratégia da Aranha". Bernardo Bertolucci criou uma narrativa cheia de espelhos e labirintos, como Borges gostava. Tratou dos temas da memória e do esquecimento, que talvez não possam ser aplicados só a Borges, mas são borgianos por excelência. "A Estratégia" ficou fora da programação porque o objetivo dos organizadores foi privilegiar o pouco visto e o desconhecido.
A memória está no centro de Borges para Millones, de Ricardo Wullicher, que passa na sexta-feira, às 18h30. São depoimentos de Borges sobre sua origem e o caráter hospitaleiro do argentino, sobre o bairro de Palermo Viejo, em Buenos Aires, que ele amava e onde outrora viviam os cuchilleros, lutadores de punhal. No sábado, também às 18h30, passa "Retrato de Borges em Alef", vídeo de Edgardo Cozarinsky, grande crítico e conhecedor profundo da obra de Borges, seguido de "El Hombre de la Esquina Rosada", de René Mugica, baseada no célebre conto, cuja ação foi transposta para o centenário da independência argentina, em 1910.
Os demais filmes do ciclo são obras de que Borges gostava. "Alexandre Nevski", de Serguei Eisenstein, "A Floresta Petrificada", de Archie Mayo, baseado na peça de Robert Sherwood, e "Alphaville", de Jean-Luc Godard. No último
o autor francês usa algumas linhas de "Nueva Refutación del Tiempo", no combate entre a máquina e o agente Lémmy Caution. Diz Alpha: "O tempo é a matéria de que sou feito, é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio, é um tigre que me destrói, mas eu sou o tigre." O tempo, sempre ele, uma obsessão borgiana.

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