EVENTO - Sob o domínio da dança
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terça-feira, 22 de julho de 2003
Antônio Mariano Júnior<br> De Joinville 
Metáforas à vista. Chama-se ''Jogo de Olho'' a recente montagem da companhia carioca Vacilou Dançou. Em estréia nacional, ela abre oficialmente hoje a terceira edição da Mostra de Dança Contemporânea do 21º Festival de Dança de Joinville. O palco escolhido foi o do Teatro Juarez Machado, com capacidade para 500 pessoas, por onde passarão, até sexta-feira, outras duas referências da dança moderna do Brasil: a companhia Quasar (Goiânia) e Cia. Municipal de Caxias do Sul (RS).
Antes da novidade, os bailarinos da Vacilou Dançou (três homens e três mulheres) resgatam e trazem à cena ''Grito'', peça de repertório coreografada em 1999 pela diretora artística da companhia, Carlota Portella. Que, para esse trabalho, extraiu quatro características recorrentes na dramaturgia de Nelson Rodrigues: o desfecho trágico, o amor de duas mulheres por um mesmo homem, as frustrações femininas (sexual, emocional, familiar, etc) e a morbidez que circunda a solidão.
São quadros isolados em que a luz tem importância fundamental para a performance - para denotar frustração, por exemplo, o refletor em determinado momento desce rente ao palco reduzindo a área de atuação do bailarino. ''É um espetáculo denso, embora seja lugar-comum usar esse adjetivo quando se fala de Nelson Rodrigues, assim como propicia risadas incômodas'', analisa Carlota Portella que fundou a companhia há 21 anos.
Para reforçar o clima rodriguiano, trilha sonora composta por canções de Astor Piazzola e Arvo Part, além de texto de Elisa Lucinda interpretado em play-back por Miguel Falabella. No total, 25 minutos de apresentação. O espetáculo foi levado ao exterior e recebeu dois consagrados prêmios, como o Prix d'Auter, do Centro Internacional de Bagnolet (França) , e Bonnie Bird, do Bonnie Bird Choreography Fund, do Laban Center (Londres).
Formada em Literatura, Carlota Portella diz gostar de trabalhar determinadas nuances de autores consagrados em suas coreografias - já recorreu a Caetano Veloso (o qual considera um poeta), Carlos Drummond de Andrade, e Bertolt Brecht. Mas Nelson Rodrigues, assim como Clarice Lispector, é seu predileto. ''Sou enlouquecidamente apaixonada por Nelson. Para mim, sua obra não é marginal, é poética. Se tivesse nascido no primeiro mundo seria um dramaturgo conhecido internacionalmente'', afirma. ''Grito'', na verdade, é a segunda montagem que fez baseada na obra de Nelson Rodrigues . A primeira foi em 1989 quando lapidou alguns aspectos de quatro das 17 peças escritas por ele: ''Dorotéia'', ''Valsa nº 6'' e ''Bonitinha, mas ordinária''
Já a segunda e mais aguardada peça da companhia Vacilou Dançou tem como mote um dos jogos mais cruéis da vida: o da dominação e submissão. Concebida pelo coreógrafo paulista Mário Nascimento, e direção artística de Carlota Portella, ''Jogo de Olho'' teve pré-estréia em junho deste ano no festival Puerta de Las Americas, no México. Mas é depois da Mostra de Dança Contemporânea do Festival de Joinville que começa a ganhar outros palcos brasileiros. Expectiva sempre costuma rondar noites de estréias, mas Carlota Portella parece estar bem tranquila em relação à montagem. ''Nunca fiz espetáculos para críticos. Internamente minha preocupação é quanto à qualidade do que vou levar ao público'', diz categórica.
''Jogo de Olho'' é o segundo trabalho que o coreógrafo Mário Nascimento realiza com a companhia Vacilou Dançou. O trabalho em conjunto, aliás, é uma das características que Carlota Portella imprimiu à sua trupe. ''Gosto de compartilhar meu trabalho com outros coreógrafos brasileiros porque acaba sendo um trabalho não autoral, como acontece com 90 por cento das companhias brasileiras. Esse relacionamento, na minha opinião, acaba enriquecendo a companhia'', analisa Carlota.
Algumas atitudes dramatúrgicas rondam o espetáculo, com 38 minutos de duração, e que começou a ganhar forma em fevereiro deste ano. Além de técnica, ''Jogo de Olho'' exige um preparo físico excepcional. ''É um trabalho orgânico, explosivo, pra fora eu diria'', adianta Carlota sobre a linguagem utilizada pelo coreógrafo Mário Nascimento.
A história se passa num local nada habitual - Carlota não gosta de usar o termo ''violento''. Pelo palco, 20 caixotes de madeira e muitos, muitos tijolos que, num sentido figurativo, vão construir as relações interpessoais de domínio e submissão. Algumas pausas silenciosas pontuam o espetáculo que só deve chegar ao Rio de Janeiro, base da companhia Vacilou Dançou, apenas em setembro. ''Até lá vamos amadurecendo cada vez mais a montagem'', finaliza Carlota Portella.
Serviço: - ''Grito'' e ''Jogo de Olho'', coreografias da companhia carioca Vacilou Dançou que abre a 3 Mostra de Dança Contemporânea do 21º Festival de Dança de Joinville. Hoje, às 22 horas, no Teatro Juarez Machado , anexo ao Centreventos Cau Hansen. Ingressos a R$ 12,00.
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a Joinville a convite da organização do 21º Festival de Dança.


