EVENTO - Sob a regência da diversidade
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sábado, 08 de julho de 2006
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Nestes dias que antecedem ao 26º Festival de Música de Londrina (FML), não é demais emprestar a afirmação de Érico Verissimo que disse ao ser questionado, em Nova York, sobre a sua cidade de origem, que era de uma localidade que tinha uma orquestra.
Os londrinenses também podem dizer com o mesmo entusiamo de um dos maiores escritores brasileiros, que Londrina é a casa de um dos festivais de música mais tradicionais, que será realizado de 13 a 29 de julho.
O próprio diretor pedagógico e artístico do FML, Marco Antonio de Almeida escala o autor gaúcho para falar sobre a importância da música, que nesta edição será traduzida em todos os seus gêneros e estilos.
''Não é só o festival de todas as músicas, mas de todas as idades e públicos. É a música popular, a música erudita em todos os seus leques seja vocal ou instrumental'', abrevia Almeida as expectativas do público e dos 870 alunos já inscritos para os 74 cursos e oficinas. Durante 16 dias de maratona, a música tomará conta das salas de apresentações, preenchendo também com acordes lugares como a rodoviária, oficinas mecânicas e hospitais.
Uma nota bem afinada dessa concepção do festival poderá ser conferida na apresentação, por exemplo, de cerca de 40 crianças e adolescentes do Projeto Guri, desenvolvido pela Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo.
A música e a dança do espetáculo ''Saltimbanco'', que será apresentado no Teatro Ouro Verde, compõem a partitura final do projeto desenvolvido pela Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo, com mais de 26 mil crianças e adolescentes, que como último movimento de um trabalho com inspiração social, livra menores do contato com situações de risco.
O festival com espetáculos como esse abre a grade de programação para discutir a cidadania, encontrando ainda espaço no Calçadão de Londrina para a apresentação da ópera ''La Serva Padrona'', composta, em 1733, por Giovanni Batista Pergolesi. É mais uma oportunidade de ofecerer um cardápio cultural, que não faz parte do dia-a-dia dos londrinenses.
Outra opção para os apreciadores do gênero é o espetáculo cômico ''O Júri'', de Arthur Sullivan. As duas apresentações serão dirigidas pela curitibana Denise Sartori.
Com a batuta artística do festival na mão, Almeida tenta agitá-la com a força de uma preocupação. ''Como diretor tenho que atendender o meu Estado e a minha região, musicalmente, com cidadania, oferecendo musicalmente várias opções. A nossa direção não tem um caráter elitista, como é o Festival de Música de Campos do Jordão. O estado do Paraná ainda precisa de formação e o Festival de Música de Londrina não manda ninguém de volta para casa, mas procura atender a todos segundo as suas possibilidades. Quero formar uma convivência muito intensa com a boa música'', comenta o diretor.
Para retinir com mais intensidade esse pensamento, o diretor criou o Primeiro Concurso Nacional de Jovens Cameristas, evento que dá um desenho novo ao festival, ao mesmo tempo em que aproxima os músicos profissão que em sua essência é solitária.
Desde que voltou a assumir a direção do FML na edição anterior, Almeida tenta bordar com música popular o festival que, na sua opinião, ao longo dos anos em que esteve afastado, perdeu um pouco do brilho dessa roupagem que, agora aparece renovada com o encontro de gêneros variados, incluindo o hip hop, rock, lundu, carimbó e música étnica.
''Durante o tempo em que me afastei, esse característica de valorizar a música popular no festival foi deturpada. Fui eu que fiz a introdução do popular no FML, o que para mim é muito gratificante. Algo de que tenho orgulho. A minha intenção não foi a organização apenas de concertos, mas dar um aspecto de formação'', comenta Almeida, acrescentando que esse tipo de educação musical é importante para cantores da noite que, através da técnica vocal, podem economizar a voz ou de bandas de rock que ao pisar noutra praia, molham não só os pés mas a própria alma do grupo em novos gêneros musicais.
Há mais de 30 anos morando na Alemanha, onde ocupa a cátedra de Música da Escola de Música de Hamburgo, o próprio Almeida mergulha em outras experiências para confeccionar o FML.
''É preciso traduzir esses conhecimentos para a nossa realidade, mas estou trazendo para o festival o tipo de organização pedagógica e toda sistematização dentro de um modelo europeu. Isso inclui também alguns tipos de programas artísticos'', ressalta o diretor, acrescentando que essa visão aparece na primeira execução em Londrina de obras em homenagens aos compositores Radamés Gnatalli e Francisco Mignone, que morreu há 20 anos. Uma celebração que contará com a presença da esposa do compositor, Josefina, na noite ''As Valsas de Mignone''.
Tributos que incluem ainda um dos notáveis do século XX, o compositor húngaro Gyorgy Ligeti, conhecido do grande público principalmente pela música do filme ''2001: Uma Odisséia no Espaço''.
Concertos que trazem na abertura oficial da festa da música londrinense, a Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP) sob a direção de Peter Frank, regente titular da Orquestra do Teatro Nacional de Weimar, na Alemanha.
Ao reunir repertórios, como o executado pela OSP, incluindo a Segunda Sinfonia de Brahms, com a participação da solista venezuelana Alicia Martinez, e na outra ponta desse palco em que a inquietação do diretor artístico se agita também com a preocupação pedagógica, Almeida promove o encontro da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (Osuel) com o maestro japonês Daisuke Soga, da Tokio New City Orchester.
''A oportunidade dos músicos da orquestra terem contato durante 15 dias, ensaiando com um maestro como esse, é muito importante. Não adianta nada termos um festival apenas pontual dentro da programação cultural de Londrina. É uma crise que sempre tive'', destaca Almeida, acrescentando que esse fôlego maior do festival poderá ser sentido em outras épocas do ano até porque o projeto apresentado à Lei Rouanet permite a captação de recursos até dezembro, o que garante a continuidade de alguns projetos.
Com um orçamento total de R$ 800 mil, sendo R$ 400 mil para a parte pedagógica repassados pelos realizadores, entre os quais a Universidade Estadual de Londrina (UEL), Prefeitura Municipal e Governo Estadual, o FML conta ainda com outros R$ 400 mil para a grade artística. Cerca de R$ 300 mil serão repassados por patrocinadores.
O secretário municipal de Cultura, Luciano Bitencourt, garante que até a semana que vem ou no máximo na outra, os recursos da Prefeitura já estarão disponíveis para a realização do FML.


