A escritora mineira Adélia Prado foi a mais aplaudida e teve a mesa de autógrafos mais concorrida entre os autores convidados da 4ªFesta Literária Internacional de Paraty (quatro horas atendendo a quase 700 leitores),ue terminou domingo e reuniu público estimado entre 12 e 13 mil pessoas. O fato de uma poeta ser o nome mais popular entre os 37 convidados da festa, marcada por debates e manifestos políticos, pode significar o esgotamento de uma discussão polarizada a respeito da hegemonia dos EUA sobre os demais países do mundo.
  Foi a própria Adélia que, na mesa de encerramento da Flip, dedicada aos livros de cabeceira dos autores, lembrou o seu, citando ‘‘A Transparência do Mal’’ (editora Papirus), do pensador francês Jean Baudrillard. O teórico crítico adverte que, no mundo pós-moderno, em que a história foi expurgada e não há nada senão um simulacro da realidade e a negação dessa história, os grandes conglomerados de comunicação assumiram o papel de ‘‘construtores ideológicos da realidade virtual’’.
  Sobre essa estratégia ilusionista, a escritora mineira lembrou que foi o próprio Baudrillard a fazer uma profecia terrível sobre um projeto destinado ao fracasso, o da União Européia. ‘‘Baudrillard previu que essa tentativa de ‘‘fraternidade’’ vai provocar ainda muitas guerras e racismo.’’ Em outras palavras: toda tentativa de uniformização cultural leva ao fascismo, e não ao reconhecimento do outro.
  Ao deslocar o Demônio para o continente europeu, a escritora católica não estava tentando jogar a culpa pelos conflitos mundiais nos ex-grandes impérios, mas mostrar que ‘‘padecemos de um horror à realidade’’, buscando culpados para a ontológica questão da iniqüidade, da origem do mal. Adélia foi uma voz lúcida em meio a discussões apaixonadas que reuniram de freiras escritoras a ex-militantes de extrema esquerda. Foi, sim, uma Flip política (e dominada por uma platéia predominantemente feminina), mas por iniciativa exclusiva dos participantes, que até redigiram um manifesto conta a guerra do Líbano.
  Os organizadores da Flip garantiram não pretender mudar o formato da festa por conta das polêmicas que provoca. Na coletiva para apresentar o balanço, entre os nomes dos possíveis participantes da quinta edição foram citados o do sul-africano J.M. Coetzee, que, ao receber o Nobel (em 2003), fez seu discurso em cima do Robinson Crusoe de Defoe, enfatizando a necessidade de vivermos num mundo sem senhores e escravos.
  A diretora de programação da festa, Ruth Lanna, citou ainda outros nomes, como o do português Antonio Lobo Antunes e do americano Philip Roth, nenhum deles ainda confirmado para 2007, quando a Flip volta ao calendário normal, isto é, na primeira semana de julho.

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