EVENTO - O toque genial de Donato
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quarta-feira, 01 de dezembro de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
João Donato, um dos pilares da Bossa Nova, desembarca hoje na cidade. É a atração desta quarta-feira do Festival de Jazz de Londrina. O show começa às 21 horas, no Teatro Marista.
Tom Jobim o chamava de gênio. Era um dos pianistas que o maestro mais gostava de ouvir. Quando era convidado para gravações e não podia participar, indicava o amigo para substituí-lo. Como prova de admiração, mantinha uma foto de Donato em casa, sobre seu piano de cauda.
Comemorando 70 anos de idade (o aniversário foi em agosto) e 55 anos de carreira, o artista experimenta uma fase de intensa criação desde que foi homenageado com um songbook e premiado com o Prêmio Shell no final da década de 90. Além de ver vários de seus discos reeditados, lançou um álbum de inéditas (''Managarroba'') e passou a participar de diversos trabalhos colaborando com artistas como Marisa Monte, Bebel Gilberto e Marcelo D2.
Durante um bocado de tempo, porém, amargou o ostracismo após despontar com seu piano na década de 50. Foi a época da debandada, quando se viu obrigado a tomar o rumo do aeroporto levando as batidas e harmonias da Bossa Nova para os palcos americanos. Lá, durante 12 anos, tocou com figurões do jazz e da música popular internacional.
Quando voltou ao Brasil, tinha mais discos gravados no exterior do que nos estúdios das gravadoras nacionais. A essa altura, tinha virado ''lenda''. Entre as novas gerações, era comum ouvir superlativos sobre seu toque ao piano, repleto de intervalos e notas alteradas. ''Quando improvisa, ele consegue ser ao mesmo tempo simples (poucas notas) e sofisticado (extremo bom gosto na escolha das notas)'' afirmava o texto de apresentação do songbook, lançado em sua homenagem já no final dos anos 90.
Hoje, no palco do Teatro Ouro Verde, o mestre terá a companhia de Luís Alves (contrabaixo), Robertinho Silva (bateria) e de seu filho Joãozinho Donato (teclados). Confira a entrevista que o músico concedeu à Folha2, por telefone.
O que você vai tocar em Londrina?
Vou fazer um apanhado de músicas novas e antigas.
Será um show de música instrumental ou você vai cantar?
Vou cantar um pouco, um pouco para não aborrecer muito as pessoas.
Desde quando o seu filho João toca em seus shows?
Desde pequenininho. Ele sempre deu canjas cantando uma música ou outra. Ele está com 19 anos e trabalha com muitos artistas, entre eles a Fernanda Abreu, a Preta Gil e a Kelly Key. Ontem (segunda-feira) ele tocou em Fortaleza (CE) e até agora não retornou. Não sei se ele vai viajar no mesmo avião comigo até Londrina.
Você esteve há dois anos em Londrina apresentando-se ao lado de Roberto Menescal, Cláudia Telles, Fátima Guedes, Wanda Sá, Rosa Passos, Lucinha Lins e Zé Luiz Mazzioti. Gostou do show e da cidade?
A turma era boa. Passamos à tarde com o pessoal do Clube do Jazz e fomos presenteados com alguns discos raros. Eu ganhei um disco chamado ''Christmas in Jazz'', no qual cada faixa é cantada por um artista. Tony Bennett, Diana Krall e Take 6 são alguns dos participantes.
Você está festejando o aniversário de 70 anos (comemorado em agosto) e 55 anos de carreira com uma série de atividades. Fale um pouco sobre esses eventos.
Vou participar de festas no Acre, minha terra natal, e em Brasília. Além disso, acabei de chegar de Moscou (Rússia) onde fui fazer show pelo quarto ano consecutivo. Nas ocasiões anteriores, me apresentei com a Orquestra de Câmara de Moscou. Desta vez, fui só com o trio.
Os russos estão descobrindo a Bossa Nova?
Na verdade, eles já a conheciam de um bom tempo. Depois, com a separação da União Soviética em vários pedaços, a música popular brasileira parece ter caído em desuso por lá. Agora eles estão voltando a ouvi-la.
Recentemente, você esteve também em Cuba...
Fui gravar o disco ''Bossa Cubana'' com o quarteto feminino Sexto Sentido.
E tem um disco que você gravou com a cantora japonesa Noriko Ito, não?
O disco foi gravado no mês passado no Rio e cantado em português. Ela gravou oito músicas minhas, duas do Tom Jobim e outra de própria autoria. Eu fiz os arranjos e toquei piano.
A Bossa Nova faz muito sucesso no Japão. Você vai com frequência para lá?
Quase todos os anos dou um jeito de ir ao Japão. Já fiz shows por lá com Lisa Ono, Joyce, Wanda Sá e sozinho. Não tenho certeza se a Bossa Nova tem mais prestígio por lá do que em outros países, mas sei que muitos discos que você não encontra por aqui, estão disponíveis nas lojas japonesas.
Fale sobre o disco que você gravou com saxofonista norte-americano Bud Shank.
O Bud é um dos melhores sax-alto do mundo. Ele foi a primeira pessoa a me ajudar nos Estados Unidos. Divulgou o meu nome através do álbum ''Bud Shank and Brazilian Friends'', lançado entre 1950 e 1960. Recentemente, ele veio ao Brasil para tocar num festival de jazz. Fizemos contatos e ele me convidou para tocar no show. Aproveitei a visita para convidá-lo a gravar um disco e, como ele tinha dois dias disponíveis, acabou topando. Agora o CD está engatilhado em processo de lançamento.
É verdade que a canção ''Qualquer Coisa'', que todo mundo conhece como sendo de Caetano Veloso, é de sua autoria?
O que acontece é que, no processo de fazer música em parcerias, você deixa três ou quatro composições para a pessoa escolher qual ou quais vai gravar. O tempo passa e, mais tarde, a pessoa grava achando que é criação dela. O que ocorre muitas vezes é que você cantarola para uma pessoa, e aquilo fica guardado na memória dela, no subconsciente. Um dia, ela grava sem dar crédito para o verdadeiro autor. Não por mau-caratismo, mas por distração e esquecimento. Com o Caetano foi assim. Ouvi a música e pensei: ôpa, mas essa música é minha! Quando fui comentar com ele no camarim, durante um show em Salvador (BA), ele falou: ''Não é que é mesmo?''. E aí no palco ele contou a história para mais de mil pessoas e todo mundo riu. Mas a coisa ficou por isso mesmo e eu deu deixei para lá.
É o único caso de ''apropriação'' de sua carreira?
O João Gilberto também tem uma música de minha autoria que ele diz que é dele. Ela se chama ''Undiú''. Lembro que quando lhe mostrei essa música, ele falou: ''Igual a essa faço dez por dia!''. Falou isso e depois gravou. Mas essas coisas não ocorrem por maldade. O sujeito acorda e diz que está tomado de inspiração quando, na verdade, a melodia tinha sido ouvida há um mês ou um ano atrás e acabou ficando no subsconciente. Isso acontece. Todos temos um pouco da música de outros em nossas músicas. Detecto umas três ou quatro composições minhas que surgiram assim. A melodia de ''Lugar Comum'', por exemplo, tem sua origem em memórias de minha infância quando a ouvia na beira do rio no Acre. Mais tarde, quando eu já estava com 40 anos, o Gil botou a letra. Não são casos de esperteza ou maldade, mas de distração. A Nana Caymmi, que costumava visitar minhas sessões de gravação e as do Milton Nascimento, apareceu um dia no estúdio cantarolando uma letra que se encaixava numa melodia em que eu estava trabalhando. Perguntei de quem era e ela disse que era do pai dela, do Dorival Caymmi. Aí fui até ele para confirmar e ele disse: ''Não é minha, mas eu assumo''. E tem o Tom Jobim, que era espirituoso e vivia dizendo: ''O artista que é imaturo, imita. O artista que é maduro, rouba''. Uma vez eu telefonei para ele: ''e aí, tá fazendo o quê?''. Ele respondeu: ''Tô roubando as partes que mais gosto das músicas dos outros''.
Serviço:
- Show de João Donato Trio, dentro da programação do Londrina Jazz Festival. Hoje, às 21 horas, no Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 241). Ingressos: R$ 10,00 + 1 kg de alimento não-perecível (estudantes pagam meia entrada + 1 kg de alimento não-perecível). Ponto de venda: loja Sonkey Videosom (R. Souza Naves, 09, telefone (43) 3321-4004). Outras informações: www.londrinajazzfestival.com.


