EVENTO - O cinema brasileiro se encontra em Brasília
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terça-feira, 23 de novembro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Com a exibição fora de concurso de ''As Vidas de Maria'', de Renato Barbieri, seguido de apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, o Festival de Brasília dá a largada hoje à noite para sua trigésima sétima edição. De amanhã até o dia 29 acontecem as mostras competitivas, com a exibição de seis longas e doze curtas em 35 mm, e vinte curtas em 16mm. No dia 30 serão anunciados os filmes vencedores, logo após a exibição de ''Entreatos'', documentário de João Moreira Salles. A dotação de prêmios aos ganhadores chega a R$ 485 mil, divididos entre as diversas categorias.
Na seleção principal, vale dizer, na competição de longas, nomes conhecidos alternam-se a estreantes, o que deixa a edição particularmente atraente. Por exemplo, ao lado do festejado e sempre potencialmente favorito Eduardo Coutinho, que mostra o documentário político ''Peões'', está a comédia social ''O Diabo a Quatro'', da estreante Alice de Andrade, filha do diretor Joaquim Pedro de Andrade. Também estarão frente a frente outro primeiro filme, a comédia ''Bendito Fruto'', de Sergio Goldemberg, o drama social ''Cascalho'', do veterano documentarista baiano Tuna Espinheira, o resgate político ''Cabra Cega'', de Toni Venturi e ''500 Almas'', de Joel Pizzini, o segundo documentário selecionado. Além da exibição dos filmes concorrentes, a programação oferece ainda quatro oficinas de roteiro e interpretação, mostras paralelas, lançamento de livros, o II Mercado do Filme e debates sobre os títulos concorrentes.
''As Vidas de Maria'', o filme de abertura, mantém estreita relação com o cenário que serve como pano de fundo do festival É a história de Maria, mulher que nasceu no mesmo dia de Brasília. Ambas percorrem crises, momentos e fatos importantes, e estão sempre em transformação.
Já é tradição afirmar que o Festival de Brasília prefere o peso da discussão de idéias à superficialidade de outras mostras brasileiras de cinema, particularmente aquelas que em primeiro lugar imprimiram o selo turístico, privilegiando o mundanismo. Não é uma afirmação descabida. Nascido há 39 anos sob inspiração do crítico Paulo Emilio Salles Gomes, entre outros pioneiros, e à sombra fértil da Universidade de Brasília, o festival começou como Semana do Cinema Brasileiro, premiando logo de saída o hoje clássico ''A Hora e a Vez de Augusto Matraga'', de Roberto Santos. Dois anos depois já adotava o nome definitivo de Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Até a presente edição só deixou de ser realizado de 1972 a 1974, pressionado pela censura dos anos de chumbo produzidos pela ditadura militar.
Outra característica, há muitos anos incorporada ao festival, é a participação da imensa platéia sempre jovem e sempre fiel que todas as noites lota o Cine Brasília, justificando com entusiasmo as premiações do chamado júri popular.


