A saga da deusa Ísis, arquétipo da maternidade e fertilidade na mitologia egípcia, forneceu amplo material de pesquisa para a companhia de danças árabes Rhamza Alli. Nesta temporada, o grupo londrinense inspirou-se na história de dor e nas habilidades daquela que é conhecida como a ''senhora da magia'' para criar sua mais recente coreografia.
''Ísis'' estréia hoje, às 20h30, no palco do Teatro Ouro Verde como o único espetáculo da 8 Mostra de Danças Árabes. O drama da divindade abre a montagem, que contará com outros números independentes, um dedicado a danças folclóricas do Egito moderno e outro voltado para as danças de tradição tribal. Segundo a lenda, Ísis nasceu do enlace entre a deusa do céu e o deus da terra.
Mulher de Osíris, foi esposa leal e mãe devota. Ele, por sua vez, tornou-se rei e civilizou o Egito. Comandando o povo, despertou inveja em seu irmão, Set, que elaborou um plano mirabolante para usurpar-lhe o trono. Maquiavélico, Set construiu uma arca ornamentada oferecendo-a num banquete àquele cujo corpo se ajustasse perfeitamente ao seu tamanho.
Como Set havia tomado de antemão, e em segredo, as medidas de Osíris, o deus-rei nela coube perfeitamente. Neste instante, os conspiradores lacraram a arca, que foi jogada ao Rio Nilo. Começava assim a jornada de Ísis, que moveu céus e terras em busca do corpo do marido para consagrá-lo rei dos mortos. Sua lição de obstinação e fidelidade atravessou os tempos dando origem à dança e a outras artes ligadas originalmente às mulheres no Egito.
Tal devoção épica sensibilizou Rhamza Alli e suas assistentes Layla Badawyia e Alejandra Leóna, que estudaram a história da heroína para traduzí-la em movimentos cênicos no palco. ''É uma coreografia de clima denso e introspectivo em que abordamos a relação dos egípcios com a vida após a morte. Trabalhamos muito com as emoções da platéia'' salienta a diretora da companhia.
Em seguida, o espetáculo ganha leveza com a apresentação de danças folclóricas do Egito contrapondo-se à abertura da montagem. Serão mostradas coreografias baseadas em criações do início do século 20 até os dias atuais. Um dos cenários será uma feira de rua. A última parte do espetáculo é dedicada às diversas manifestações de dança tribal, gênero sempre acolhido com entusiasmo pelo público londrinense.
No ano passado, durante a 7 Mostra, arrancou empolgados aplausos da platéia. Extremamente festiva, a dança tribal mescla influências de árabes, norte-africanas, hindus e outros povos. ''Vai do Norte da Índia ao sul da Europa passando pelo Oriente Médio, Turquia e comunidades ciganas'' lembra Rhamza. 'O figurino é multi-colorido. Usamos turbantes, jóias, medalhas e pompons. A música junta guitarra espanhola, percussão árabe e tambores primitivos'' diz ela.
Pela primeira vez, a companhia mostra os passos da ''guedra'', dança de bênção e de transe das beduínas berberes, cuja percussão pulsa como o coração. No palco estarão 20 bailarinas, incluindo a coreógrafa e diretora, além de dois convidados especiais: Marx Bruno (do Ballet de Londrina) e o músico Lucas Raffo (percussionista da banda Vitruvios).
Segundo Rhamza, a montagem que estréia hoje une o Egito ancestral ao contemporâneo trazendo um painel do longo caminho de evolução da dança na cultura oriental. A quem estranhar o fato de apenas um único espetáculo compor a programação da 8 Mostra de Danças Árabes, a diretora explica que o evento é feito de acordo com a disponibilidade de recursos. Ela lembra que, até a quarta edição, a programação era mais variada porque sua turma de alunos e o corpo de bailarinas da companhia era maior.
''Isso permitia realizar e apresentar mais montagens. Hoje está difícil, mesmo porque fazemos tudo sem contar com nenhum patrocínio'' diz. Ela está completando 10 anos de atuação em Londrina, onde foi pioneira em dança árabe. Chegou em janeiro de 1996 vinda de São Paulo, onde ajudou a introduzir a tradição no Brasil. ''Quando comecei, há duas décadas, podia se contar nos dedos de uma mão quem trabalhava nessa área'' conta.
Crítica da banalização da dança do ventre, popularizada há quatro anos através da novela O Clone (Globo), Rhamza alerta que a moda passou deixando literalmente sequelas entre os desavisados. ''Houve uma explosão de escolas oportunistas'' sublinha. ''O resultado é que baixou a qualidade do ensino e dos trabalhos. Já recebi meninas que, depois de passarem pelas mãos de profissionais mal-preparados, apresentaram problemas de coluna, dores nas costas e nas coxas e até deslocamento do fêmur. O pior é o efeito provocado na cultura com a vulgarização de uma tradição de 5 mil anos de história''.
Depois da estréia no Teatro Ouro Verde, o novo espetáculo da companhia entra em cartaz de amanhã a domingo no Circo Teatro Funcart, também às 20h30.

Serviço:
- Espetáculo ''Isis'', com a Companhia de Danças Árabes Rhamza Alli, na 8 Mostra de Danças Árabes de Londrina. Hoje às 20h30. Local: Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Amanhã, sábado e domingo às 20h30. Local: Circo Teatro Funcart. Ingressos: R$ 15,00 (antecipados), R$ 20,00 (na bilheteria) e R$ 10,00 (meia-entrada). Ponto de venda: Loja Marrakech (Rua Prof. João Cândido, 410, loja 1. Tel. 3356-0666). Mais informações: (43) 3341-4194. www.rhamza.com.br.

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