EVENTO - Noite de prêmios no Festival de Brasília
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de novembro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Brasília, especial para a Folha 2 
Diante da quantidade crescente e da diversidade temática de um gênero que nos últimos anos mostrou sua vitalidade e se reaproximou do grande público, o Festival de Gramado instituiu, já nesta década, mostra competitiva paralela e exclusiva para o documentário. Brasília não entende assim, e sempre coloca lado a lado tanto o documentário quanto a ficção na disputa pelos prêmios. Há quem defenda uma ou outra fórmula, mas de qualquer maneira esta deverá ser a principal dúvida a atormentar o júri oficial de longas e curtas em 35mm do 37º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A solução pode estar na clássica divisão de recompensas: melhor filme para um e prêmio especial do júri para outro.
A mostra brasiliense termina hoje à noite na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional com a revelação dos vencedores e a entrega dos tradicionais troféus Candango e dos prêmios em dinheiro R$ 435 mil , logo após a exibição hors- concours do filme de encerramento, o documentário ''Entreatos'', de João Moreira Salles. É que, além do belo e erudito ''500 Almas'', de Joel Pizzini, no fim de semana entrou na cena competitiva o mais recente trabalho de Eduardo Coutinho, considerado por muitos o grande mestre do documentário brasileiro.
''Peões'', lançado em circuito nacional na última sexta-feira, faz coro com ''Entreatos'' para tentar explicar a fascinação que Luiz Inácio Lula da Silva exerce ainda hoje sobre grande parte do povo brasileiro. Enquanto em ''Entreatos'' a câmera de Moreira Salles segue de perto Lula em campanha e prestes a alcançar o poder, o filme de Coutinho percorre rumo completamente diferente. O diretor dos premiados ''Santo Forte'' e ''Edifício Master'' buscou personagens anônimos, com o objetivo de reconstituir aquele período conturbado das históricas greves metalúrgicas do ABC, quando desponta no cenário nacional a liderança de Lula
Embora recebido pela platéia do Cine Brasília com entusiasmo mais contido do que aquele que saudou a ficção político-intimista ''Cabra Cega'', o documentário de Coutinho é notável quando busca como matéria de humanidade os ''peões'' da indústria metalúrgica, os anônimos que não estavam nos palanques das lideranças grevistas dos anos 1980. O filme resgata os rostos anônimos dos operários engajados nas lutas reivindicatórias de recorte fortemente político. Levanta suas identidades e parte ao encontro deles para saber de onde vieram e que fim levaram, os sonhos, as esperanças, as frustrações. ''Eu conto uma história que não está inserida na Grande História'', disse o diretor durante os debates.
Na vertente ficcional, mais dois concorrentes, e com resultados francamente opostos. ''Cascalho'', do veterano realizador baiano Tuna Espinheira, é baseado em romance de época de Herberto Salles. O filme reconta a saga de rudes garimpeiros de pedras preciosas na Chapada Diamantina. Com roteiro em blocos pesados, episódico e pouco fluente, ''Cascalho'' não oferece muita coisa além de considerável esforço de produção e correção técnica. Na verdade, não se encontra justificativa para sua inclusão nesta mostra competitiva a não ser talvez homenagear a persistência de um diretor cuja trajetória é reconhecidamente de histórica resistência regional.
A outra ficção é a simpática comédia carioca ''Bendito Fruto'', estréia do diretor Sergio Goldemberg. Uma notícia de jornal transformada em crônica de costumes. Otávio Augusto é o cabeleireiro Edgar no salão, as atendentes Lúcia Alves e Camila Pitanga. Um bueiro que explode na rua promove o reencontro dele com Virginia (Vera Holtz), ex-colega de escola e agora fogosa viúva. Mas Edgar vive com Maria (Zezeh Barbosa), filha da ex-empregada da família dele. Os dois têm um filho não assumido por Edgar e morando na Espanha. Virginia quer conquistar Edgar. Furiosa, Maria sai de casa. O filho volta e revela seu romance com o galã de novela vivido por Eduardo Moscóvis. O quiprocó está armado.
Bem-humorado, sem qualquer grosseria e sem medo de ser honesto na abordagem de temas sempre refratários como união inter-racial e homossexualismo assumido, ''Bendito Fruto'' é um filme leve sem se perder em bobagens, feito com inteligência e grande dose de carinho. É muito interessante a maneira como se relaciona com a televisão, na forma e na crítica que traz embutida. Leva grande chance de premiação no quesito atores. Todos estão ótimos, com destaque para a veterana televisiva Lucia Alves.
O crítico Carlos Eduardo Lourenço Jorge está em Brasília a convite da organização do Festival, como membro do júri da mostra de filmes em 16mm


