A companhia francesa Théâtre du Radeau chega ao Brasil pela primeira vez e convida o público do 14º Festival de Teatro de Curitiba a compartilhar as sensações do espetáculo ''Coda''. De hoje ao dia 27 (exceto na sexta-feira), o grupo se apresentará como única atração internacional da Mostra Contemporânea, no palco do Teatro Ópera de Arame, onde foi montada uma estrutura para abrigar uma platéia de 150 pessoas.
''Coda'' é uma denominação que deriva da figura musical de retomada da frase no fim de um trecho. Mas também pode significar a retomada de experiências do passado, como na concepção do diretor François Tanguy para esse espetáculo. São memórias poéticas apresentadas num encontro entre espaço, música, corpo, voz e movimento.
O espetáculo traz ao público fragmentos do teatro e da música, que vão de Antonin Artaud e Giuseppe Verdi a Johann Sebastian Bach e Luigi Pirandello. ''A música, a princípio, nada tem de narrativa. Nos fragmentos de ópera, por exemplo, usamos apenas sua intensidade'', detalha o diretor, em entrevista à Folha2. Da mesma forma, a palavra integra o espetáculo em forma de fragmentos poéticos em italiano, francês e alemão (traduzidos em folheto entregue à platéia). O texto não existe como texto. Segundo Tanghy, são palavras que podem ser ouvidas ou não, entendidas ou não.
O espetáculo se baseia na construção de relações entre movimento e percepção, espaço e iluminação, variações de tempo e temporalidade, como sua própria estrutura, que só se mostra no tempo. ''É uma relação entre forças de tensão e um tipo de reflexão acerca da materialidade. Acredito que são experiências de colocar corpos em movimento, de criar relações e de modificar'', diz Tanghy.
No trabalho da companhia, tempo e espaço se intercalam para provocar uma construção. ''Um encontro de emoções, pensamentos, sentimentos variados que levam à construção de um potencial. É como se o movimento viesse à procura do espectador, mas sem previsões'', explica. ''Coda é o esboço de um gesto. Não diz mais do que diria alguém que cultiva uma planta ou que cantarola para adormecer uma criança. É tão simples e complicado quanto tudo o que existe na natureza''. Uma dica do diretor ao público é não tentar entender o trabalho racionalmente, mas deixando levar-se pelas sensações.
''Coda'' estreou em novembro na cidade francesa de Le Mans, onde fica La Fonderia, espaço criado pela companhia numa tentativa de fugir da idéia de teatro convencional. ''A caixa que construímos é uma tela, uma espécie de hangar móvel, no qual o espectador penetra diretamente. Quando entra, já está no espaço e, portanto, numa relação imediata''. A companhia não pôde trazer o espaço para o Brasil, procurou criar uma proximidade de percepção no palco do Ópera de Arame. Dentro dessa estrutura cênica uma espécie de tenda de 30 x 15 metros , o público é acomodado em arquibancadas montadas sobre o palco, onde estarão os sete atores da companhia.
De um lado, esse espaço tem sua própria autonomia e ritmo (já que ele se transforma, movimentado pelos atores) e poderíamos olhar para ele por si só (como se olha uma rua, uma paisagem). Por outro lado, está em tensão constante com os outros elementos (corpo, voz, música, cores, trajes e luzes).
Depois de Curitiba, o Théâtre du Radeau criado há mais de 20 anos viajará para São Paulo, onde entra em cartaz no Sesc Belenzinho. A companhia ainda poderá permanecer mais um tempo no Brasil, caso feche apresentações no Rio de Janeiro. No retorno à Europa, cumprirá agenda na França, Itália e Alemanha.

Serviço:
- 14º Festival de Teatro de Curitiba. ''Coda'', com a Cia. Théâtre du Radeau, da França. Hoje, amanhã, sábado e domingo, às 20h30 e 22h30, no Ópera de Arame. Ingressos a R$ 24,00. Programação completa no site www.festivaldeteatro.com.br.

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