A vertente teatral da obra de Chico Buarque foi revisitada outra vez no Festival de Música de Londrina. ''Gota d'Água'', a peça escrita em 1975 em parceria com Paulo Pontes, é a principal atração do dia numa programação recheada de apresentações de alunos.
O espetáculo será encenado às 20h30 no Cine Teatro Ouro Verde, com possibilidade de haver uma segunda sessão, caso haja demanda de público. A montagem é resultado de um curso de dez dias dirigido por Regina Lucatto, que já montou nos mesmos moldes os musicais ''Calabar'' (2001) e ''Ópera do Malandro'' (2002), ambos de Chico Buarque.
''Gota d'Água'' é inspirada na tragédia grega ''Medéia'', de Eurípides, escrita no século 5 a.C. Adaptada para o Brasil dos anos 70, foi ambientada na Vila do Meio-Dia, um conjunto residencial proletário do Rio de Janeiro. Joana, a Medéia brasileira, é abandonada por Jasão, com quem tivera dois filhos.
Ele pretende se casar com Alma, filha de Creonte, proprietário do cortiço e explorador daquela população oprimida. Sem conseguir reatar a relação, e sem dinheiro para pagar o aluguel, Joana vai parar na rua junto com os dois filhos. Como também não consegue executar um plano de vingança (envenenar Alma no dia do casamento), ela acaba envenenando os filhos e a si mesma.
Se o texto original traz apenas quatro músicas ''Flor da Idade'', ''Bem-querer'', ''Basta um Dia'' e ''Gota d'Água'' , Regina adicionou outras quatro composições ao roteiro musicando alguns blocos de versos. Assim, receberam melodia os episódios ''Canto do Gigolô'', ''Coro das Vizinhas'', ''Quem pode, pode'' e ''Oi, tira o Coco'' (esta feita em parceria com Marcos Leite).
Alternando canções e textos, o espetáculo traz embutidos alguns ''bifes'', monólogos e diálogos longos que poderiam dificultar a performance da turma. ''Mas isso não foi problema. Os alunos se empenharam e me deram muito orgulho'' conta ela. A primeira montagem do musical, realizada em 1975, contou com Bibi Ferreira no papel principal.
Em Londrina, o elenco é formado por amadores oriundos de grupos corais e de teatro e com alguma experiência em canto. Repetindo a fórmula das duas últimas edições do Festival, Regina abriu inscrições e selecionou os atores-cantores. Nos ensaios, trabalhou com uma turma de 35 alunos. Alguns haviam participado das montagens de ''Calabar'' e ''Ópera do Malandro''.
''Esse núcleo foi importante, porque são meninos e meninas que já vêm num crescendo com uma intenção, um prazer e uma iniciativa maior. Um deles me falou: 'eu me preparei o ano inteiro para participar da montagem'. Isso mostra que eles leram o livro, que vêm mais envolvidos e preparados'' explica ela. No palco, a personagem Joana será interpretada por várias atrizes, com destaque para Karina Campos.
É ela quem canta no segundo ato a íntegra da canção-título, cujo refrão pontua o espetáculo de ponta a ponta sublinhando as idéias do autor (''Já lhe dei meu corpo, minha alegria / Já estanquei meu sangue quando fervia / Olha a voz que me resta / Olha a veia que salta / Olha a gota que falta pro desfecho da festa / Por favor / Deixe em paz meu coração / Que ele é um pote até aqui de mágoa / E qualquer desatenção, faça não / Pode ser a gota dágua'').
Além de Karina, destacam-se também Raul Fortes (Jasão), Eric Mago (Creonte), Natalia Lacueva (Alma), Maxuel Gomes (Mestre Geu), Tiago Fuganti (Galego) e Geraldo Márcio (gigolô Cacetão). Como na montagem de ''Ópera do Malandro'', o pianista carioca Marcelo Caldi foi recrutado outra vez para fazer o acompanhamento dos trechos cantados do espetáculo.
A concepção cênica traz uma cadeira no centro do palco, simbolizando o ''trono'' e o poder de Creonte. No lado direito, caixas de papelão e um varal com roupas, lençóis e pregadores dão a noção da favela. No lado esquerdo, estão instalados um bar e um botequim. Regina salienta que ''Gota d'Água'' é uma ''peça densa, forte, com grande apelo dramático e tratada de forma lírica''. ''O Chico conseguiu unir os opostos com uma grande delicadeza'' diz.
Ela conta que os alunos correram atrás de adereços para compor os figurinos dos personagens. ''Sugeri apenas que usassem roupas lisas, sem estampas'' lembra. Regina é integrante do grupo vocal carioca ''Garganta Profunda'', além de ser docente da Faculdade da Cidade do Rio de Janeiro e atuar como regente de coral em empresas. Pela terceira vez consecutiva, põe a dramaturgia de Chico Buarque sob os holofotes do Festival de Música.
No ano passado, o excedente de público obrigou os organizadores a abrir uma sessão extra de ''Ópera do Malandro''. O mesmo poderá ocorrer hoje com a nova montagem, caso a fila dobre quarteirões deixando gente do lado de fora. A programação do dia inclui ainda um bate papo sobre maracatu com o Mestre Afonso (do grupo Maracatu Nação Leão Coroado, de Olinda, PE), às 10 horas, no Colégio Mãe de Deus; um recital de alunos do FML, às 12 horas, no R.U (campus da UEL); uma apresentação com alunos da oficina de maracatu, às 16 horas, no distrito de Lerroville; um outro recital de alunos, às 18h30, no Teatro Zaqueu de Melo; e uma apresentação de alunos da oficina de jazz, no mesmo horário, na Associação Médica.
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