Curitiba - Nem só de ritmos eruditos e populares vive a Oficina de Música de Curitiba, manifestações folclóricas do Brasil e do Paraná também aparecem no evento e marcam presença no evento conquistando admiradores de todos os lugares. Na oficina Folia do Divino, por exemplo, estudantes vindos da Argentina, São Paulo e Rio de Janeiro estão conferindo o que o folclore tem de tão especial. O principal chamativo é que os requisitos para esses dois cursos, não são necessariamente a obrigação de tocar um instrumento ou saber teoria musical. Nos oficinas que abordam essas manifestações populares, a condição é estar aberto à diversão, à folia e à compreensão de manifestações que podem se perder no tempo se não forem resgatadas com dignidade.
E é esse resgate que os dois cursos, que abordam o folclore nacional e especificamente paranaense, pretendem promover na oficina. Desde que começaram a acontecer há três anos, as oficinas com esse tema ganham cada vez mais adeptos. O professor Aorélio Domingues, que ministra o curso de Fandango e Folia do Divino, revela que as manifestações paranaenses estão há muito tempo restritas ao Litoral do Paraná. ''E já passou da hora das pessoas conhecerem mais o nosso folclore'', diz. Domingues nasceu na Ilha dos Valadares, em Paranaguá, Litoral do Estado e berço do fandango paranaense. Há três anos começou a dar aulas no curso de fandango na Oficina e este é o primeiro ano que ministra o curso Folia do Divino no evento.
A aposentada carioca Iná Ribeiro Mariano nunca tinha participado das aulas da Oficina antes, embora já tenha acompanhado o neto violinista em anos anteriores. Dessa vez, escolheu a oficina da Folia do Divino para participar. ''Eu tenho interesse pelas músicas de raízes. Acho que tenho que aprender para ensinar para os meus netos'', justifica. Para ela, através do folclore é possível descobrir o comportamento das pessoas no decorrer do tempo. A cantora argentina Laura Dantas também escolheu as oficinas de folclore para se matricular. Este é o segundo ano que ela participa da Oficina. ''Eu gosto da música brasileira e quis conhecer um pouco mais sobre ela'', diz.
Tanto o curso sobre fandango, quanto a Folia do Divino são divididas em teoria (com o histórico de cada uma) e prática. Mas o limite entre as duas coisas é tênue quando se aborda o assunto. ''Falamos sobre a influência dos povos nessas manifestações e depois incluímos a música com instrumentos como chocalho, bumbo e viola. Abordamos o tema, ao mesmo tempo que praticamos as danças'', revela o professor. Sobre o fato dessas oficinas não exigirem nenhuma pré-condição do aluno, o professor explica: ''Nós temos essa tradição há séculos, passada oralmente, com uma musicalidade que se aprende sem precisar de pré-requisitos. No curso fazemos a mesma coisa, é como se o folclore continuasse a ser repassado de pai para filho'', salienta Domingues.
O material para participar da oficina é inusitado. Fitas e chapéus coloridos, paletós antigos, saiotes rodados, bonecos e acessórios que destoam dos ''cases'' de violinos, violões e intrumentos eruditos do evento, mas são tão valiosos quanto qualquer equipamento de última geração. É com esses materiais que a turma de Fandango e Folia do Divino consegue entender como aconteciam as manifestações populares que atravessam gerações.
O Boi de Mamão, por exemplo, é uma das teatralizações do Auto de Boi brasileiro - manifestação que se encontra de norte a sul do país. É auto de ressurreição, em que o personagem Pai Mateus - dono do Boi-de-Mamão - é morto por uma chifrada do animal durante uma brincadeira. O boi fica muito triste, pois não era essa a sua intenção, e os participantes cantam para chamar o Dr. Girão, um médico que apela à simpatias para ressuscitar o morto. Com o Mateus vivo, as pessoas celebram com muita dança e música o Auto do Boi-de-Mamão.
Na oficina de fandango, o professor Aorélio Domingues conta com ajuda de fandangueiros ''legítimos'', vindos do Litoral do Paraná. São integrantes da Associação Mandicuréa, que abordam o instigante universo cultural do fandango nas aulas diárias. Uma das principais características dessa manifestação são os tamancos de madeira. Nessa cultura com influência híbrida de portugueses, espanhóis, índios e africanos, os homens dançam com tamancos de madeira - fazendo a percussão da música e as mulheres bailam entre eles. A melodia é feita por violas, rabecas, machetes, adufos e caixa. As letras, ou versinhos, são compostos na hora da dança. O resultado da melodia, ritmo, letra e dança é uma conversa bastante animada entre dançarinos e tocadores que pode ser conferida hoje, ao vivo.

Serviço:
- Apresentações de Fandango: hoje, com participação dos alunos da 24 Oficina de Música de Curitiba, no Circulo Militar, às 20 horas. Entrada franca.

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