Curitiba - Duas estréias marcam o primeiro dia do 14º Festival de Teatro de Curitiba (FTC), hoje:''Foi Carmen'' e a ''Última Viagem de Borges''. A primeira é uma montagem do polêmico diretor Antunes Filho e faz uma referência à ''pequena notável'' Carmem Miranda. A segunda, dirigida por Sérgio Ferrara, leva para o palco uma viagem fictícia feita pelo escritor argentino Jorge Luiz Borges, com roteiro assinado por Ignácio de Loyola Brandão. Ferrara trabalhou durante cinco anos com Antunes Filho, na década de 90, no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), e se diz muito influenciado por ele. Por isso, independente da montagem que o espectador escolher hoje, dentro da Mostra Contemporânea do FTC, o teatro de Antunes Filho, irremediavelmente, estará no palco.
''Foi Carmen'', foi o primeiro espetáculo a ter os ingressos esgotados em toda a grade do festival. A expectativa é grande, mas Antunes dá algumas dicas para o espectador ávido por assistir a uma montagem assinada por ele: ''o espetáculo se realiza por meio de pequenos detalhes. Não sei se os brasileiros estão acostumados a isso, portanto aviso que é preciso entrar no teatro sem esperar nada''. Conselho difícil de seguir.
A peça une dois ícones aparentemente distantes: o dançarino japonês Kazuo Ohno e a portuguesa Carmen Miranda numa improvável mistura de samba e teatro butoh. A idéia de juntar os dois mitos da arte surgiu no final do ano passado, quando o diretor foi convidado a encenar uma peça em homenagem aos 99 anos de Kazuo Ohno. ''Em 1981 eu vi o Ohno pela primeira vez, num festival em Paris. A partir daí, a minha forma de fazer teatro mudou'', conta Antunes.
''Através do Kazuo Ohno, eu consegui viajar pelo inconsciente. Antes dele eu fazia um teatro objetivo. Ele me deu possibilidade de descobrir que o teatro não fica só no conflito'', diz. E apesar de escolher uma personalidade extravagante como Carmem Miranda para fazer uma montagem minimalista como desenvolve Kazuo Ohno, Antunes conta que criou um espetáculo muito menos sobre a cantora e muito mais sobre o imaginário popular a respeito dela. No palco, um ''não cenário'' serve de pano de fundo para que os atores Arieta Corrêa, Emily Sugai, Juliana Galdino e Paulo Arruda desenvolvam a montagem, que tem figurinos de J.C. Serroni. E como enfatiza Antunes, o segredo da peça está nos ''detalhes''.
A montagem abre uma série de comemorações marcadas em 2005, ano que marca os 50 anos da morte da cantora, mas Antunes revela que a data foi uma ''coincidência''. Na verdade, diz ele, a escolha de Carmen Miranda para ilustrar a montagem em homenagem ao Kazuo aconteceu por causa do primeiro encontro de Antunes com Kazuo, quando o artista japonês encenava ''La Argentina''. ''Foi Carmen'' teve sua primeira apresentação ontem, para convidados, mas estréia para o público hoje. Depois de apresentar-se em Curitiba, a montagem segue para o Japão, onde será apresentada ao prórpio Kazuo Ohno.
A outra estréia de hoje, ''A Última Viagem de Borges'' também está gerando expectativa e foi uma das cinco espetáculos com ingressos mais vendidos, embora ainda restassem lugares até a tarde de ontem. Trata-se do primeiro texto para teatro do escritor paulista Ignácio de Loyola Brandão. Ele foi convidado por Ferrara e a artista plástica Maria Bonomi, que assina o cenário da peça, para escrever um texto sobre Borges, em 2003. ''Na hora eu aceitei, mas depois pensei 'o que eu estou fazendo'?'', brinca Loyola. A primeira versão tinha mais de duzentas páginas que foram resumidas a 47, depois de longos encontros com o diretor.
Para escrever o roteiro, Loyola se inspirou no filme do cineasta italiano Frederico Fellini, '''Oito e meio'' (1963), que conta a história de um bloqueio. Na peça, o escritor argentino, que era cego, perde uma palavra e começa uma extensa e onírica viagem em busca do vocábulo perfeito. Nessa viagem, personagens da obra de Borges, referências a autores que ele idolatrava e passagens da sua vida se misturam em um ambiente fantástico. ''Não se trata de uma adaptação nem de uma biografia. É uma peça sobre Borges'', esclarece Loyola não assistiu a nenhum dos ensaios do espetáculo e aguarda para hoje o resultado do trabalho.
''É uma montagem em que a equipe se sobressai. O teatro não é um exercício individual e neste espetáculo todos os elementos, desde cenário, figurinos e atores, compartilham a cena'', avisa o diretor. Ferrara adianta que não tentou fazer um espetáculo para que ele seja bom ou ruim. ''Mas que ele esteja vivo''. No elenco de ''A Última Viagem de Borges'', estão Luis Damasceno, Flávia Pucci, Marco Antônio Pâmio, Olayr Coan, Fernando Pavão e Rodrigo Bolzan, com cenários da artista plástica Maria Bonomi.

Serviço:
- 14 Festival de Teatro de Curitiba. ''Foi Carmen'', hoje e amanhã, às 20h30 no Teatro da Reitoria. ''A Última Viagem de Borges'', de hoje a sábado, às 20h30. Ingressos a R$ 24,00. Programação completa do festival no site www.festivaldeteatro.com.br

mockup