EVENTO - Brasil terá sua primeira fanzinoteca
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sábado, 23 de outubro de 2004
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Quem gosta muito daquilo que lê, escuta ou assiste, uma hora quer também fazer. Assim nasceram os fanzines (de fanatic magazine as ''revistas dos fãs''), que buscam levar, com o máximo de liberdade de expressão possível, o universo underground dos quadrinhos, da literatura, da música, do cinema, enfim, de qualquer coisa, desde que haja alguém disposto a criar e divulgar idéias. E o Brasil vai ganhar no próximo mês sua primeira fanzinoteca, a segunda do mundo: a Fanzinoteca de São Vicente (a 90 quilômetros da capital paulista), que vai reunir, catalogar e debater a produção alternativa gerada do Oiapoque ao Chuí.
''Os quadrinhos brasileiros mostram muito da nossa cultura, mas nas bancas temos só os super-heróis dos americanos, a arte dos europeus e os mangás dos japoneses. A fanzinoteca tem como objetivo encontrar a identificação dos quadrinhos brasileiros'', explica Fábio Tatsubo, chefe de departamento da Secretaria de Cultura do município, e que também produz quadrinhos há 15 anos. De acordo com Tatsubo, a idéia é reunir não só as produções sobre a nona arte, mas também qualquer outro tipo de fanzine.
A semente da Fanzinoteca de São Vicente nasceu ®MDBO¯®MDNM¯em 1999, quando Tatsubo decidiu fazer quadrinhos sobre a história da cidade. ''Fiz uma adaptação das lendas da cidade, que rendeu um prêmio HQ Mix. O pessoal da Secretaria de Cultura gostou e apoiou a produção'', lembra Tatsubo.
Ele também destaca que a confecção dos fanzines é muito importante para a fomentação da produção nacional de diversos setores da cultura brasileira e serve de estímulo para as pessoas encontrarem o ''talento adormecido'', que muitas vezes não percebem ter. ''O leitor quer deixar de ser leitor para uma hora ser autor também. O fanzine é um outsider (marginal). É uma coisa autoral, que dá liberdade para as pessoas fazerem o que quiser. É um laboratório de quadrinhos'', completa.
Um dos aspectos interessantes é que, de acordo com Piter Yamaoka, responsável pela catalogação dos fanzines, 40% da produção do material da mostra da Fanzinoteca de São Vicente são feitos por mulheres. Num mercado dominado por homens tanto criadores, como leitores os fanzines passam a ser também uma alternativa de espaço para os bons trabalhos realizados pela ala feminina.
O acervo da mostra não vai servir apenas para consulta e apreciação, mas também passará a ter um importante valor histórico. ''Queremos realizar, com a fanzinoteca, um estudo antropológico do comportamento do homem. As pessoas, mais tarde, vão poder ter um recorte do panorama dos anos 2000, o que era produzido no cenário alternativo brasileiro nessa época'', diz Tatsubo.
A programação começa no dia 11 de novembro, às 19 horas, com a abertura da mostra de cerca de 250 fanzines, com um catálogo produzido pelo quadrinista Gazy Andraus, famoso por seu material filosófico, e pela pesquisadora Sonia M. Bibe Luyten, autora de diversos livros sobre a nona arte, como o ótimo ''Mangá: O poder dos quadrinhos japoneses''.
No dia 17, Ângela Rama, Waldomiro Vergueiro, Alexandre Barbosa, Paulo Ramos e Túlio Vilela lançam o livro ''Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula''. Dia 20, o desenhista Ivan Reis, que atualmente ilustra a principal revista do Superman nos Estados Unidos, ministra uma oficina sobre anatomia de super-heróis, e a dupla Emílio Baraçal (do site ''A Arca'') e André Prata ensina os iniciantes a produzir quadrinhos.
A programação segue no dia 24, quando a Fanzinoteca de São Vicente vai promover um debate, mediado pelo jornalista Paulo Ramos, que irá reunir o cartunista Alex Ponciano, do jornal santista ''A Tribuna''; Gazy Andraus; a fanzineira Elza Keiko, produtora do zine Orbital; Sonia Bibe Luyten; e Marcelo Naranjo e Marko Ajdaric, representantes do site de notícias Universo HQ.
Serviço:
- A Fanzinoteca está aberta para receber trabalhos e os interessados devem enviar o material para a Secretaria da Cultura de São Vicente (Rua João Ramalho, 988, Centro) São Vicente (SP) CEP: 11.310-050. Telefone: (13) 3467-7015.


