EVENTO - A fé à luz do teatro
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de março de 2005
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
A fé e o que ela pode provocar de melhor e de pior no homem. Da mais profunda manifestação de crença à mais cega atitude. Essa é a discussão levada à cena no espetáculo ''A Caminho de Casa'', que o Armazém Companhia de Teatro apresenta de hoje a terça-feira na Mostra Contemporânea do 14º Festival de Teatro de Curitiba. O grupo dirigido por Paulo de Moraes estará em cartaz sempre às 20h30, no Teatro da Reitoria.
Um elenco de dez atores encena o texto escrito por Moraes em parceria com o dramaturgo Maurício Arruda Mendonça, que tem outras peças escritas para o Armazém. Ainda dos tempos em que o grupo trabalhava em Londrina, antes de se instalar no Rio de Janeiro, há sete anos.
O trabalho anterior da companhia, ''Casca de Noz'', apresentado na cidade no ano passado, pode ser considerado o ponto de partida de toda a pesquisa de ''A Caminho de Casa'', que analisa a fé agindo sobre o homem contemporâneo. ''A montagem é uma resposta a todas as coisas tratadas em 'Casca de Noz', que aborda a formação do universo a partir da ciência e da visão exuberante de Ítalo Calvino, ambas relacionadas à questão da fé'', comenta Paulo de Moraes.
Fatos da atualidade, como atentados terroristas, reforçaram a discussão dos integrantes do grupo em torno do modo de enxergar as coisas no mundo. ''Sou um homem de pouca fé, mas nas nossas conversas vimos que ela tinha esse poder de modificar as coisas, para melhor ou para pior'', diz. O resultado dessa reflexão, depois de sete meses de trabalho, levou à montagem de três histórias diferentes, que se encontram a partir de um acontecimento: a explosão de um ônibus nos arredores de uma cidade grande.
Na primeira história, um engarrafamento na auto-estrada é causado pela explosão. Dez personagens diferentes são obrigados a conviver por dois dias, suscitando sentimentos como amor, solidariedade, indiferença, agressão e intolerância, como antecipa Moraes. Esta é a história contada em ''Sobre a Dificuldade de Dar um Passo'' e que leva ao palco personagens como uma lutadora de telecatch, um legista e uma noiva a caminho do casamento.
A amizade entre um velho árabe e um garoto judeu marcam a segunda história, inspirada na novela francesa ''Monsieur Ibrahim et les Fleurs du Coran'' (Sr. Ibrahim e as Flores do Corão''), de Eric-Emmanuel Schimitt. Para Paulo de Moraes, essa é quase uma fábula sobre a tolerância, narrada por prostitutas de um bordel. Os dois amigos, unidos pela solidão e pela dor da perda, têm a possibilidade de seguir caminhos alternativos, paralelos ao do engarrafamento.
''Crianças Brincando em Campo Sagrado'' é a terceira história encenada pelo Armazém. Nela, a mãe de um homem morto na explosão conversa com Deus sobre crenças e a capacidade de amar, e chora a morte do filho.
As histórias de narrativas independentes apresentam um denominador comum entre os personagens presos nesse engarrafamento: a solidão. Durante duas horas, a cena traz pessoas isoladas em seus automóveis seis carcaças destruídas de carros foram adaptadas e colocadas no palco, com luzes internas, limpadores de pára-brisa e faróis. Paulo de Moraes aponta que a busca por uma nova forma de dizer coisas levou à construção de uma estrutura cênica que rompe com certa rigidez da representação tradicional. Uma projeção de vídeo permite um prolongamento do congestionamento de veículos e,
juntamente com o uso da iluminação, causa a sensação de passagem do tempo.
Para Paulo de Moraes, a cenografia é uma peculiaridade nos espetáculos do Armazém. ''É uma característica nossa trabalhar com cenografia de ponta''. Fato que se alia ao desenvolvimento de uma dramaturgia própria e de uma questão essencial para o grupo: o ator.
''A Caminho de Casa'' estreou no final de setembro, no Rio de Janeiro. Críticos da imprensa carioca destacaram a direção de Moraes e a atuação de Patrícia Selonk, Simone Mazzer e Thales Coutinho, que estão em cena com Simone Vianna, Sérgio Medeiros, Ricardo Martins, Isabel Pacheco, Stella Rabello, Marcelo Guerra e Raquel Karro. O espetáculo foi indicado ao prêmio ''O Globo Faz a Diferença'', concedido pelo jornal carioca aos melhores do ano.
Após o Festival de Curitiba, o espetáculo volta em cartaz na Fundição Progresso (espaço do grupo no Rio) e em julho segue para temporada no Nordeste. O Armazém teve projeto aprovado este ano pelo Centro Cultural Banco do Brasil e deve começar em breve a montagem do novo espetáculo, que tem estréia prevista para novembro. Quem quiser saber mais sobre a companhia pode acessar o site www.armazemciadeteatro.com.br.
Serviço:
- 14º Festival de Teatro de Curitiba. ''A Caminho de Casa'' Espetáculo do Armazém Companhia de Teatro. Hoje, amanhã e terça-feira, às 20h30, no Teatro da Reitoria (Rua XV de Novembro, 1299). Ingressos a R$ 24,00 (Mostra Contemporânea) e de R$ 2 a 20,00 (Fringe). Estudantes, maiores de 60 anos, clientes Itaú e Vivo têm direito a meia entrada)


