Evangelizar é preciso
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quinta-feira, 09 de setembro de 2004
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Para a comunidade cristã a praticante, em especial o segundo filme protagonizado pelo padre Marcelo Rossi é tão aguardado como um evento religioso. Por isso, não será de estranhar se muitos se colocarem em posição de reverência de forma manifestada ou silenciosa durante a exibição de ''Irmão de Fé'', que entra em cartaz hoje em 300 salas espalhadas pelo Brasil (veja programação de cinema na página 2).
''Irmãos de Fé'' tem apelo popular, mas o cunho religioso, o que de fato interessa a um filme do gênero, tem mais vigor histórico do que o sentimentalismo exacerbado de ''Maria, mãe do filho de Deus''. A contundência das palavras e atitudes do apóstolo Paulo, envolta em algumas licenças poéticas, evocam a reflexão e não lágrimas copiosas eis o grande acerto do diretor Moacyr Góes que assina também o argumento.
Do ponto de vista estético ''Irmãos de Fé'' trabalha com narrativa intimista (às vezes arrastada, é certo), iluminação densa e planos fechados, embora o grande mérito do filme sejam as interpretações dos atores. Thiago Lacerda em nada deixa a desejar ao contracenar com Othon Bastos e José Dumont, respectivamente Pedro e Tiago. O galã das novelas e minisséries mostra-se um bom ator capaz de passar por privações físicas chegou a emagrecer doze quilos para mostrar um Paulo mais humano que santo.
A sinopse: ''Irmãos de Fé'' narra a trajetória do sacerdote judeu Saulo de Tarso, perseguidor implacável de cristãos, por ele chamado de ''hereges''. Durante uma viagem a cavalo a Damasco, uma luz de intensidade forte o cega. ''Saulo, porque me persegues?'', indaga a voz de Jesus Cristo. Com visão recuperada através do perdão vindo das mãos de Ananias, é batizado como Paulo e torna-se um dos mais ferrenhos defensores da palavra de Deus. Esse evento serve de principal referência a duas outras histórias. Uma delas, focalizada nos dias de hoje, mostra a trajetória de um adolescente chamado Paulo (Micael Borges) levado à Febem após ter sido preso por um sequestro relâmpago.
Padre Marcelo intervém em favor do rapaz, que aos poucos começa a ler a história do apóstolo Paulo. Outra história se desenrola em 2020 vejam, só! com o ex-rebelde visitando a Febem, agora como um homem evangelizador. Os flash-backs servem para que padre Marcelo, ou simplesmente padre, como se referem a ele no filme, faça a ponte entre passado, presente e, por que não, futuro.
''Irmãos de Fé'' tem cenas brilhantes e impactantes como o confronto de idéias dos apóstolos Paulo e Tiago. É que o primeiro entendia que deveria®MDBO¯ ®MDNM¯ pregar a palavra de Deus por todos os cantos, enquanto seu companheiro preferia arrumar primeiro a casa (Jerusalém) para depois sair mundo afora. O divergência é aplacada com sabedoria por Pedro, o pilar principal da história da igreja católica.
''Irmãos de Fé'' é um filme direcionado a um determinado público, embora a intenção seja alcançar o maior número possível de fiéis espectadores. No entanto, é bom avisar: há alguma coisa fora da ordem como a amizade ficcional de Paulo e a grega Teodora (Francisca Queiroz), visivelmemte inspirada em ''Irmão Sol, Irmã Lua'', de Franco Zefirelli, além da estranheza de verdadeiros judeus ortodoxos vendo um padre usando o ''quipá'' , na Jerusalém de hoje.
Mas se a finalidade do filme é evangelizar, tudo vale a pena quando o público a cativar não é pequeno com o perdão do infame trocadilho. Agora, a cena de um avião rasgando o céu interrompendo bruscamente o clima intimista instaurado até então, poderia ser melhor trabalhada, em nome do merchadising. Bem, pelo menos ninguém poderá levianamente dizer que o filme não decola.


