Os simpatizantes e detratores do presidente Hugo Chávez podem não se comportar de acordo com a boa etiqueta ao se sentar na mesma mesa para discutir política, mas provavelmente serão diplomáticos ao falar dos projetos de formação musical de crianças e adolescentes implantados na Venezuela em meados da década de 70.
Tais projetos já conquistaram diversos prêmios no exterior, além de reconhecimento por instituições como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). O filme ''Tocar e Lutar'', que será exibido hoje como parte da programação do 28º Festival de Música de Londrina, conta um pouco dessa história.
A projeção será às 18h, logo após o concerto do Quarteto de Cordas de Brasília, no Espaço Royal (antiga sala de cinema do Royal Plaza Shopping), seguida de comentários de Eugênia Meijer-Werner, uma brasileira radicada em Caracas. ''O ensino de música para crianças e jovens transformou a música erudita num gênero quase popular na Venezuela'', salienta ela.
Segundo Eugênia, aproximadamente 300 mil alunos participam dessas iniciativas de inclusão social através da música. ''A meta é atingir 1 milhão'', diz ela, que se autodenomina uma ''embaixatriz'' da obra de Villa-Lobos na terra de Chávez. Ela veio ao Brasil para acompanhar a turnê da Orquestra Juvenil das Américas (sediada em Washington D.C/EUA), que faz apresentações no Rio, em São Paulo e em Campos de Jordão.
Está de passagem por Londrina para divulgar as iniciativas venezuelanas na área da música e para fazer companhia à sua filha, Anik, responsável pela cenografia de alguns dos concertos do Festival. Eugênia nasceu no Rio, mas mora há 40 anos no país vizinho. Designer gráfica de profissão, criou com o marido (o alemão Rolf Meijer Werner) a Fundação Meijer Werner, que dá apoio a projetos culturais e de proteção ao meio ambiente com ênfase no estímulo a jovens talentos de música clássica.
Há três anos, idealizou o Festival Villa-Lobos, já com duas edições. Na deste ano, realizada em maio, organizou uma série de concertos de música de câmara dedicada ao repertório de Villa-Lobos. Entre os participantes convidados estavam o maestro Isaac Karabtchevsky e o pianista e diretor artístico do Festival de Música de Londrina Marco Antônio de Almeida.
''Os dois são fascinados pelo movimento musical que ocorre naquele país'', salienta ela. ''Toda a população venezuelana apóia o Sistema Nacional para Orquestras Juvenis e infantis, fundado há 33 anos pelo maestro José Antonio Abreu. O método de formação musical de crianças e jovens é uma combinação do método Suzuki com outros métodos. As atividades são lúdicas, com muita brincadeira. Todas as crianças adoram, todas querem aprender a cantar e a tocar um instrumento para fazer parte de um coro ou de uma orquestra''.
Segundo ela, o sistema tem apoio de todos os governantes que se sucedem no poder. ''Não é um projeto cultural, mas social. Atualmente, há cerca de 120 orquestras espalhadas pelos estados e povoados'', diz. Eugênia lembra que o método venezuelano é aplicado no Brasil em três experiências realizadas no Rio de Janeiro, na Bahia e em São Paulo.
Ela pretende ampliar o intercâmbio, levando brasileiros interessados à Venezuela para conhecer os núcleos do projeto. ''As pessoas passariam dez dias lá recebendo todo o apoio, incluindo treinamento com os professores'', afirma. O filme, que será exibido logo mais, é a peça promocional com a qual planeja conquistar entusiastas em Londrina.

mockup