Cannes - Quarenta e seis anos depois de ‘‘O Mundo do Silêncio’’, documentário de Jacques Cousteau e Louis Malle vencedor da Palma de Ouro, a competição de Cannes volta a acolher o gênero. Valeu a pena esperar. ‘‘Bowlling for Columbine’’, de Michael Moore, é um brilhante ensaio sobre armas e violência na sociedade americana.
Quando começa o filme, e por um tempo apreciável, Moore provoca com o humor e a irreverência. Quando entra em sua segunda metade, o impacto das questões que ele levanta é tão perturbador que é impossível comentar o filme de imediato. Que é uma obra dura, sempre inquisitiva, provocadora, profunda. E muito, muito assutadora. Autor completo - além de diretor, também escreveu, produziu e é presença constante na frente das câmeras -, Michael Moore coloca a questão: o que há a respeito de americanos, armas e violência? As respostas mais óbvias e sempre à mão apontam na direção da sangrenta história americana, da influência negativa da mídia, de um grupo de agitadores que inclui o astro do rock Marilyn Manson e do videogame. Moore trata de desmistificar esta coleção de desculpas e mergulha fundo atrás de respostas para tentar explicar um massacre como o da escola Columbine, em Littleton, Colorado, onde dois estudantes mataram doze colegas e um professor em 1999, e depois se suicidaram - pela manhã, a dupla tinha praticado boliche, daí o título original.
Material de arquivo, pesquisa, enquetes, entrevistas: Moore faz de tudo e até mesmo interfere, alternando objetividade e subjetividade, ora conduzindo por trás das câmeras, ora aparecendo como guia. Mas não importa se é incomodo, insolente, dissimulado. As causas levantadas para explicar a paranóia armada e potencialmente explosiva, bem como os numeros estarrecedores que o filme oferece são uma overdose de matéria prima para reflexão. Momento antológico: a entrevista com o ator Charlton Heston, presidente e membro mais ativo e influente da Associação Nacional do Rifle. Depois de cinco minutos de conversa, Moore desmonta as defesas de Heston, que desaba e na queda leva junto Ben-Hur, Moisés, El Cid, Michelangelo...(C.E.L.J.)

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